Feminismo

O feminismo e a destruição dos sexos

Talvez você nunca tenha ouvido falar de Shulamith Firestone. Deveria. Essa judia nascida em Otawa, no Canadá, em 1945, e morta em Nova York, em 2012, é um dos grandes ícones do feminismo de segunda onda e, provavelmente, a maior legisladora invisível – para usar a arguta expressão de Theodore Dalrymple – do mundo ocidental hoje. Naomi Wolf, autora de O mito da Beleza, escreveu que, sem ler a principal obra de Firestone, o clássico feminista A dialética dos sexos, publicado em 1970 quando ela tinha apenas 25 anos, “ninguém pode entender como o feminismo evoluiu sem ler este marco radical e inflamatório da segunda onda[1]”. É verdade. Mas não é só o feminismo que se torna incompreensível sem a leitura da obra. A própria política sexual que nos governa, com todas as suas notáveis e impressionantes consequências, ficaria além da nossa compreensão.

Este artigo não pretende fazer uma análise detalhada da filosofia iconoclástica de Firestone, que incluía a destruição da família nuclear e da noção de infância, bem como a liberação do incesto e da pedofilia[2], como condições prévias para atingir o socialismo, mas chamar a atenção para uma de suas ideias que vem tendo enorme repercussão nos dias de hoje: a destruição dos sexos. Firestone chegou a ela fazendo uma transposição dos dogmas centrais da filosofia marxista às relações entre homens e mulheres. Marx havia ensinado que havia duas classes sociais: burgueses e proletários, sendo que os primeiros oprimiam os segundos. Aos proletários caberia adquirir consciência da opressão sofrida e fazer uma revolução pela tomada dos meios de produção. Quando isso acontecesse, não é que a burguesia perderia seus privilégios. As próprias classes sociais desapareceriam. Não haveria mais nem burgueses nem proletários: todos seriam iguais. Firestone raciocinou: existem duas classes sexuais, homens e mulheres, sendo que os primeiros oprimem as segundas. Às mulheres cabe adquirir consciência da opressão sofrida e fazer uma revolução pela tomada dos meios de reprodução (Firestone, provavelmente influenciada pela leitura de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, achava que a submissão histórica das mulheres se devia ao fato de elas não terem tido controle sobre sua própria fertilidade. A sucessão incontrolada de gravidezes obrigava-as a se dedicarem à criação dos filhos e a dependerem do homem para sobreviver. Logo, a revolução feminista implicaria a tomada dos meios de reprodução). Quando a revolução feminista fosse feita, não é que os homens perderiam seus privilégios. As próprias classes sexuais desapareceriam. Não haveria mais nem machos nem fêmeas. Todos seriam iguais.

Essa ideia revolucionária foi imediatamente abraçada pelo movimento feminista, que, através dos seus vários meios de difusão ideológica, como as universidades, a mídia, a moda, o cinema etc., disseminou-a na sociedade ocidental. O resultado é que hoje, mesmo quem nunca ouviu falar de Firestone, defende ideias e práticas de apagamento das fronteiras entre os sexos que a teriam deixado saltitante e orgulhosa de sua própria influência. Entre essas ideias e práticas podemos destacar as seguintes: não existe mais cores de meninos e meninas. Meninos podem usar rosa, e meninas azul. Não existem mais brinquedos de meninos e meninas. Meninos podem brincar de boneca, e meninas de futebol. Não existem mais roupas de meninos e meninas. Meninos podem usar maiôs[3] e vestidos, meninas podem usar terno e gravata. Também não existem mais profissões de homens e mulheres. Homens podem ser cuidadores de crianças e idosas, e mulheres podem trabalhar na construção civil ou em plataformas de petróleo. Pode-se dizer que estamos vivendo na era do tanto faz sexual. Há alguns anos, se um filantropo quisesse distribuir presentes para crianças de um bairro carente, ele colocaria os brinquedos de meninos num saco e os de meninas em outro e, chegando lá, faria a distribuição de acordo com o sexo delas. Hoje o mesmo filantropo colocaria tanto faz quais brinquedos dentro de um saco e, chegando lá, jogá-los-ia para o alto para que tanto faz qual criança pegasse tanto faz qual brinquedo.

Recentemente, fui informado por um amigo da existência de um livro chamado Sex Scandal – The drive to abolish male and female, da jornalista americana Ashley McGuire[4], disponível no site da Amazon, que dele dá a seguinte descrição:

Homens e mulheres costumavam gritar: viva a diferença!

Mas agora, ao contrário de toda ciência e senso comum, devemos acreditar que não há diferença. (E se você insistir que existe, você pode ser acusado de um crime de ódio!)

Nossa cultura – e nossas leis – estão endossando uma visão de mundo enraizada na loucura.

Por exemplo, nos dizem que:

  • Os rapazes que pensam que são raparigas (e que podem mudar de ideias amanhã) devem poder participar nos desportos das raparigas – e tomar banho nos seus vestiários;
  • As mães grávidas agora parem “indivíduos”;
  • Os dormitórios e banheiros mistos da faculdade são ótimos, mas os clubes do mesmo sexo são um perigo no campus;
  • É horrível que as lojas tenham departamentos de vestuário para meninos e meninas separados (sem falar em seções de brinquedos);
  • Seria uma ótima ideia para nossos militares reduzir os padrões físicos e empurrar mulheres jovens e mães para papéis de combate nas forças armadas;

Se você acha que isso é insano, não está sozinho, mas pode se surpreender com o quão difundida – e bem-sucedida – essa campanha lunática se tornou.

Em seu irresistível novo livro, Sex Scandal, a jornalista Ashley McGuire leva a cabo esta campanha radical e revela:

  • Como a chamada “normativa de gênero” é contrária à ciência (que está provando que homens e mulheres são ainda mais diferentes do que é comumente reconhecido);
  • Por que – especialmente se você tem filhos – é quase impossível evitar as consequências perigosas de um mundo “neutro de gênero”;
  • Como abraçar as diferenças sexuais pode tornar o policiamento mais seguro, o governo mais eficiente – e os fundos hedge perdem menos dinheiro;
  • Como a “neutralidade de gênero” está tornando as mulheres mais vulneráveis ​​à violência;
  • Como a palavra “gênero” – originalmente um termo gramatical – tem sido usada para descartar a realidade do “sexo” (masculino e feminino) definido e biológico com “identidades de gênero” fluidas;
  • Por que a insanidade de “gênero” não é algo que podemos simplesmente ignorar e a esperança desaparecerá, mas precisamos refutar – agora – com fatos duros e frios antes que cause mais danos (o que provavelmente acontecerá);

Escândalo sexual: a campanha para abolir homens e mulheres está repleta de entrevistas inovadoras, exemplos chocantes e fatos “inconvenientes” que todos precisam ler – e seguir em frente.

Essa não é revolução qualquer. Pelo contrário, de todas as revoluções que esse mundo viu, essa me parece a mais profunda e radical. Os revolucionários de antigamente limitavam-se a substituir governantes ou formas de governo. Os socialistas deram um passo além: quiseram não apenas modificar o modo de produção de bens e mercadorias, mas reformar a natureza humana, transformando o homem de um ser que busca seus próprios interesses e a satisfação de suas necessidades em um ser voltado para os interesses coletivos e a satisfação das necessidades do grupo social a que pertence. Mas essa reforma socialista da natureza humana não implicava a destruição dos sexos. Os socialistas prometeram libertar homens e mulheres dos grilhões que os acorrentavam, mas não propuseram que, para isso, seria necessário transformar machos e fêmeas em andrógenos. Convém analisar, portanto, se a revolução de Firestone é viável ou não.

Uma vantagem inegável desse projeto revolucionário é que ele amplia a opção dos seres humanos, dando-lhes chance de fazer aquilo para o qual se sentem inclinados. No mundo de antigamente, em que as divisões sexuais eram bastante rígidas, uma mulher que sonhasse jogar futebol e tivesse talento para isso seria proibida de praticar o esporte, já que ele era permitido só para os homens. Já um homem que se sentisse mais confortável trabalhando como babá e que tivesse talento para lidar com crianças, provavelmente seria forçado a escolher uma profissão supostamente mais adequada ao seu sexo. Dado que parte da felicidade vem de se fazer o que se gosta, creio que um afrouxamento dos papéis sociais que permita a cada um fazer aquilo para o qual tem inclinação aumenta a quantidade de felicidade neste mundo. Portanto, deve ser saudado e bem-vindo.

O mesmo raciocínio vale também para questões mais complexas, como a escolha da identidade de gênero. Se uma menina se sente mais confortável como menino e gosta de usar roupas de menino, e da mesma forma um menino se sente mais confortável como menina e gosta de usar roupas de menina, não acredito que os pais devam fazer esforços para mudar essas preferências. De qualquer forma, seria inútil. A disforia de gênero, na maioria dos casos, costuma desaparecer espontaneamente com o tempo. Nos casos em que não desaparece, seria pouco provável convencer a pessoa que sente ter nascido no corpo errado a aceitar o sexo biológico com o qual nasceu.

Essa fluidez, no entanto, tem alguns limites óbvios que hoje são perigosamente desprezados. Já existem feministas defendendo que a separação por sexo nos esportes é discriminação contra as mulheres, pois baseia-se na ideia de que as mulheres não podem fazer tudo o que os homens fazem. Assim, não deveria existir nem futebol masculino nem futebol feminino, mas só futebol. Levando essa ideia às últimas consequências, deveríamos colocar mulheres para lutar MMA ou boxe contra os homens…

A facilitação para as mulheres em testes de aptidão para recrutamento no exército, na polícia e nos bombeiros também me parece problemática, pois acarreta a diminuição da qualidade dos serviços prestados pelo Estado à população. Walyson Pereira de Souza, um amigo meu de facebook, contou-me certa vez a seguinte história: “Eu já fiz um treinamento de bombeiros civis, no próprio corpo de bombeiros do Ceará. Aqui tanto as minhas colegas de treinamento quanto as raríssimas bombeiras militares tinham diferenciação tanto de repetições, quanto de intensidade e execução. Acredito que mulheres bombeiras desse batalhão não tinham condições de salvar um gatinho de uma árvore sem uso de equipamentos e apoio masculino”. Em seu livro Sexo, Mentiras e Feminismo, o ativista neozelandês Peter Zohrab relata o tipo de problemas que podemos ter ao aceitar essa patranha: “Então quando estes dois polícias patrulham juntos, o homem é por vezes forçado a proteger a mulher porque ela não se consegue proteger a si própria. Isto aconteceu recentemente em Wellington, na Nova Zelândia. Dois polícias desarmados foram lesados num ataque, o homem mais gravemente que a mulher. Empregar mulheres como bombeiras é também um risco para a população. As pessoas podem morrer apenas porque às mulheres falta força na parte superior do corpo para transportar pessoas pesadas e inconscientes para fora de um edifício em chamas, por si próprias. No passado, se dois bombeiros entravam num edifício em chamas e viam duas pessoas inconscientes, estas duas pessoas seriam carregadas ou arrastadas para fora. Agora, se entram um homem e uma mulher bombeiros num edifício em chamas e descobrem duas pessoas inconscientes, uma destas vítimas pode morrer, a não ser que o homem possa voltar a tempo de salvar a segunda!”

As feministas costumam zombar dos homens dizendo que a masculinidade é frágil. Mas hoje todos nós somos obrigados a dizer, mesmo sabendo ser mentira, que as mulheres podem fazer tudo o que os homens fazem, tão bem quanto eles, apenas para não machucar o ego delas. Há não muito tempo, revisando um artigo acadêmico, fiquei abismado como a autora se recusou a admitir essa verdade, apesar dos depoimentos que ela própria colhera. A história foi a seguinte: a prefeitura de uma cidadezinha aqui perto de Goiânia abriu concurso público para o cargo de gari. Muitas mulheres foram aprovadas e escaladas para trabalhar nos caminhões de coleta de lixo. Assim que elas começaram a trabalhar, os homens chiaram. Na entrevista concedida à autora, eles revelaram que o problema não era o fato de elas serem mulheres, mas de atrapalharem o cumprimento da meta que era imposta a eles pela prefeitura. Eles tinham que coletar tantas quantidades de lixo toda noite ou percorrer tantos bairros (não me lembro agora qual era o critério exato) toda noite, e a menor velocidade e força física delas atrasavam o trabalho. Embora o depoimento deles deixasse claro que o problema era uma diferença biológica irrevogável, a autora atribuiu a queixa deles ao machismo e continuou insistindo na tese da igual capacidade entre mulheres e homens. Ora, o fato óbvio é que, nas atividades que exigem grande força física, as mulheres não podem fazer o que os homens fazem e, quando podem, não significa que podem fazer com a mesma eficiência. Cabe às mulheres aceitarem esse fato em vez de a sociedade sofrer as consequências ruinosas da sua negação. Não há motivo para elas acharem que isso as diminui.

[1] https://www.thevillager.com/2012/08/shulamith-firestone-radical-feminist-wrote-best-seller-67/.

[2] Embora eu saiba que a pedofilia não implica necessariamente o abuso sexual de crianças, optei, por razões de economia, utilizá-la aqui de preferência a relações sexuais entre adultos e crianças.

[3] https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/01/16/homens-de-maio-por-que-alguns-meninos-estao-usando-a-peca-neste-verao.htm.

[4] https://thecatholicassociation.org/who-we-are/ashley-mcguire/.

Fonte da imagem: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1354/androgino.

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