Feminismo

A dor pública e a dor privada

Eu me considerava uma pessoa de esquerda até não muito tempo atrás e, como tal, era feminista. Acreditava em todas as desvantagens femininas que são divulgadas pela mídia, ou seja, que as mulheres ganham menos que os homens por sexismo, que as mulheres são as maiores vítimas da violência doméstica, que o Brasil é o 5º país do mundo que mais mata mulheres etc.

O ponto de virada na minha vida começou com a leitura de O complexo de Cinderela, da Colette Dowling, livro que ficou famoso na década de 80 e que defende a tese herética de que, apesar de toda a arenga bajulatória sobre a força e o empoderamento femininos, as mulheres continuam a agir como menininhas frágeis, vulneráveis e delicadas que, inconscientemente, desejam ser protegidas por um homem forte (o pai substituto) e que, além de tudo, recusam-se a assumir as responsabilidades da vida adulta.

Mas o que me causou estranheza no livro da senhora Dowling não foi isso, e sim a informação de que uma pesquisa havia descoberto que os pais tendem a reagir de forma diferente ao choro dos filhos e das filhas. Quando as bebezinhas choram, os pais correm para socorrê-las, acarinhá-las e confortá-las. Quando os bebezinhos choram, os pais já não demonstram tanta pressa. “Aparentemente”, diz a autora, “é mais fácil para os pais ignorar o choro de bebês do sexo masculino” (p. 71). (Nos próximos artigos meus, vou me referir a esse fenômeno como amparo diferencial, para não precisar explicá-lo novamente.)

Os pais não agem assim por maldade, mas porque consideram que as meninas são frágeis e delicadas, portanto, incapazes de lidar com as adversidades da vida sozinhas, sem ajuda externa. Os meninos, por outro lado, são considerados fortes, por isso os pais presumem que eles são capazes de lidar com seus infortúnios sem precisar da ajuda de ninguém.

Os pais transmitem então recados diferentes a meninos e meninas. Às meninas eles dizem: “Sua dor nos machuca, seu sofrimento nos comove, sua angústia nos aflige. Quando você estiver com problemas, grite, que nós iremos te socorrer”. Em contrapartida, aos meninos eles dizem: “Está sofrendo? Está com dor? Se vire. Seja homem.” Ou seja, a menina aprende desde o berço que sua dor é a dor dos outros, enquanto o menino aprende que a sua dor é só sua mesmo. Não é à toa que, ao crescerem, as meninas se tornam reclamonas insuportáveis (também conhecidas como feministas), ao passo que os meninos, tendo aprendido que não adianta gritar, guardam suas mágoas a sete chaves e se tornam potenciais candidatos ao suicídio.

O problema daquela informação trazida por Dowling é que ela não se encaixava com aquilo que você poderia considerar como a tese central do feminismo: a ideia de que este mundo foi feito pelos homens e para os homens, ou seja, para satisfazer as necessidades e interesses dos homens (ideia que Mary Wollstonecraft expressou assim em seu Reivindicação dos Direitos das Mulheres: “toda criação foi feita apenas para a conveniência e o prazer do homem”).

Naquele dia e nos dias seguintes, uma profusão de perguntas incômodas começou a chacoalhar dentro do meu cérebro:

1 – Se o mundo foi feito para satisfazer as necessidades e interesses dos homens, por que nós não estamos satisfazendo nem os interesses nem as necessidades dos bebês recém-nascidos? E se nós não estamos satisfazendo os interesses e necessidades dos bebês recém-nascidos, que motivo temos para acreditar que a sociedade está preocupada em satisfazer os interesses e as necessidades dos meninos de 5 anos, dos adolescentes de 15, dos adultos de 45 ou dos idosos de 85?

2 – Se a vida das mulheres é mais difícil que a dos homens, como alegam as feministas, por que as meninas estão recebendo mais carinho, atenção e compaixão que os meninos?

3 – É possível que a vida feminina pareça pior que a masculina porque a sociedade está fazendo com homens e mulheres a mesma coisa que os pais estão fazendo com meninos e meninas, ou seja, dando atenção à dor das mulheres e ignorando a dos homens?

4 – Que outros privilégios as mulheres recebem da sociedade por serem consideradas fracas?

5 – Se as mulheres são fortes, como as feministas garantem, não seria o caso de elas renunciarem a todos os privilégios que a fraqueza lhes proporciona?

Algumas dessas perguntas não são difíceis de responder. Considere a 4, por exemplo. Além de receber palanque para gritar de dor e explorar a compaixão alheia, as mulheres são dispensadas do serviço militar obrigatório com a desculpa de que são fracas e incapazes de combater nos campos de batalha. Elas também podem agredir os homens sem que os homens tenham sequer o direito de revidar, pois se considera que a agressão do fraco não machuca o forte, ao passo que o mais leve piparote do forte no nariz do fraco o deixaria escangalhado. Em caso de desastre, naufrágio de um navio por exemplo, elas podem ganhar um lugarzinho num bote salva-vidas enquanto os homens ficam para trás para morrer como heróis (ou trouxas?). Eu poderia dar inúmeros outros exemplos desses privilégios da fraqueza, mas terei oportunidade de me aprofundar nesse assunto em outro momento. Por ora, gostaria de chamar a atenção para a questão 3.

Não se passa um dia sem que você ligue a TV, pegue um jornal ou acesse um portal de notícias sem que seja informado sobre algum problema feminino. Até mesmo os mais insignificantes recebem destaque. Não faz muito tempo, o New York Times publicou um editorial sobre manterrupting… Na verdade, estou sendo inexato. A obsessão em apontar os problemas femininos é tamanha que até mesmo se inventam problemas… O jornal O Globo certa vez publicou uma matéria na qual chancelava a opinião da geriatra Andrea Prates de que, embora as mulheres vivam mais do que os homens, existe o risco de a longevidade feminina ficar em segundo plano… O subtítulo da matéria era: As chances de a mulher envelhecer numa situação de fragilidade são grandes. Eu fico me perguntando o que se passa pela cabeça desses iluminados? Será que eles acreditam de verdade que envelhecer numa situação de fragilidade é pior do que morrer?

Mas, enquanto os problemas femininos são punhetados à exaustão, os problemas masculinos ninguém sabe, ninguém viu…. Os homens morrem mais do que as mulheres em praticamente todas as áreas da vida, com exceção do parto talvez, e não se encontra na imprensa um único artigo sobre isso. Você encontra matérias sobre mortes decorrentes de acidente de trabalho, de trânsito, homicídio, suicídio, overdose de drogas, afogamento etc., mas nenhuma que expresse preocupação com o fato de os homens serem as maiores vítimas, ou que reivindique ações governamentais para estancar essa sangria.

A tendência antimasculina do judiciário também não é discutida. O sociólogo Greg Mewbold afirmou que “as mulheres violentas são propensas a serem tratadas de maneira mais branda pelos tribunais. Raramente lhes são dadas sentenças de prisão, mesmo para ofensas sérias, e, quando vão para a prisão, normalmente têm sentenças mais curtas” [1]. Quantas pessoas sabem que os homens podem pegar penas até 60% mais longas que as mulheres pelo mesmo crime? [2]

A ausência de matérias sobre direitos reprodutivos masculinos é tão acentuada que tais direitos se passam como algo que só diz respeito às mulheres. É certo uma mulher grávida decidir sozinha se vai ter um filho ou não (filho que ela não teve sozinha)? É certo uma mulher excluir o homem da tomada de decisão sobre a continuidade ou interrupção da gravidez e, depois de nascido o filho, chamar o homem para participar da criação do menino? Por que a gravidez mediante fraude só é criminalizada quando cometida por homens (stealthing)? Por que os homens que se tornaram pais depois de serem enganados por uma mulher (que mentiu sobre estar tomando anticoncepcional, ou ser estéril etc.) deveriam pagar pensão alimentícia? Homens que foram vítimas de fraude de paternidade – que sem saber criaram filhos que não eram seus, frutos de uma relação extraconjugal de suas esposas – deveriam ter o direito de ser indenizados pela mulher que os enganou? E essa mulher, deveria ir para a cadeia? Deveria haver um projeto de lei que obrigasse os hospitais a realizar testes de DNA para evitar que esses casos ocorressem? Essas são algumas das questões que não estamos discutindo pelo simples fato de que esses problemas sequer estão sendo mencionados…

Eu poderia dar outros exemplos de problemas masculinos que são escamoteados da discussão pública, mas acho que esses são suficientes para responder à pergunta 3. Sim, a sociedade está fazendo com homens e mulheres a mesma coisa que os pais fazem com os meninos e as meninas. E pelos mesmos motivos. Apesar de toda a discurseira sobre a força e o empoderamento femininos, nós ainda consideramos as mulheres frágeis e vulneráveis, logo necessitadas da nossa proteção. E as mulheres, por muito fortes que se considerem, nunca deixam de se aproveitar das vantagens que a fraqueza lhes proporciona. Quantas vezes você viu uma mulher recusar esse palanque para gritar de dor?

Feministas alegariam que, como as mulheres sofrem mais, elas têm mais é que gritar mesmo. Mas a percepção de que as mulheres sofrem mais é apenas uma consequência do fato de que as dores femininas são públicas enquanto as masculinas são privadas. O que importa nesse mundo não é quem sofre mais ou sofre menos. O que importa é com qual dor nós queremos nos importar…

Termino chamando a atenção para uma consequência dessa ocultação do sofrimento masculino: a circularidade. Na medida em que só nos importamos com as mulheres, só vemos motivo para investigar os problemas femininos. E na medida em que só descobrimos os problemas femininos, só vemos motivo para nos importamos com as mulheres…

1 – Citado por Peter Zohrab em Sexo, Mentiras e Feminismo, p. 128.

2 – Estimating gender disparities in federal criminal cases. Sonja B. STarr.

Crédito da imagem: https://www.essr.net/cdcomunicacao/al7464/Responsive/.

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