Literatura

Como ajudar um suicida

Um dia, o Juvenal veio até a minha casa e, como sempre costumava fazer, desatou a lamuriar:

– Que diferença faço eu para o mundo? – perguntou ele, depois de tomar um café que eu mesmo preparei. – Que sei eu fazer que outro não faria mil vezes melhor? Que posso eu dizer que outro não diria mil vezes melhor? Que são todos os meus talentos e todas as minhas realizações na ordem geral das coisas? Fiz lá eu alguma coisa que possa ser lembrada no futuro? Existe algum mundo onde viver mediocremente possa ser considerado uma façanha? Não existem outros que, sendo muito mais talentosos do que eu, estão completamente esquecidos, como se nunca tivessem vivido? Onde estão os senhores John Cooper e Vassili Turnovski? Que é feito dos insignes Paulo Toledo e Inácio Gonzáles? Onde estão esses que deveriam ter ganhado a celebridade e que estão ocultos nas gavetas do esquecimento? Não, eu não faço falta a esse mundo. Eu, que sou muito inferior a todos os meus conhecidos, que não sei especular na bolsa nem montar um negócio lucrativo, que não consigo inventar nenhuma utilidade doméstica, que não sei falar nenhuma língua estrangeira e que, para dizer a verdade, mal domino o idioma pátrio, eu, que nunca aprendi trigonometria e nunca soube resolver uma equação de segundo grau, que nem sequer consigo arrumar um emprego de zelador ou porteiro num edifício decrépito, eu, que sou tão prosaico e insosso quanto um dia de chuva, por que eu deveria continuar vivendo sobre a terra, perpetuando uma vida que é cacete para mim e inútil para os outros? Que sou eu além de um número abstrato e indefinível perdido numa multidão de números abstratos e indefiníveis? Alguém, além daqueles para quem chorar é um dever, sentirá a minha falta? Haverá algum obituário nos jornais falando a meu respeito? Os telejornais darão notícia da minha morte? Alguém escreverá uma biografia sobre um pobre-coitado como eu? Haverá cortejo fúnebre a desfilar pelas grandes avenidas das grandes cidades? Algum escultor fará uma estátua retratando minha abjeta figura? Alguma prefeitura decretará luto oficial em homenagem a mim? Meu vizinho, com quem briguei a vida inteira, ainda se lembrará do meu nome no dia seguinte à minha morte? Alguém dirá de mim outra coisa que não seja: “Já foi tarde!”?

Assim que ele terminou de falar, levantei-me do sofá e, sem revelar minhas intenções, fui até o meu quarto pegar a espingarda que meu pai me deixara de herança. De regresso à sala, sentei-me no sofá de frente para ele e, sem dizer nada, fiz da sua testa o meu alvo.

– Meu Deus, o que é isso, homem? – perguntou ele, aterrorizado.

– Isso? Ah, não se preocupe, não é nada… Já que sua vida não vale nada mesmo comparada com as outras, já que seus talentos e suas realizações não significam nada na ordem geral das coisas, já que você não passa de um número abstrato e indefinível perdido numa multidão de números abstratos e indefiníveis, então assassiná-lo aqui mesmo também não será nada.

– Mas eu não quero morrer – murmurou ele, tremendo dos pés à cabeça.

– Mas por que não? A morte vai livrar você da sua insignificância e a mim das suas jeremiadas intoleráveis.

– Olha, por favor, não faça isso! Eu prometo que, se você não me machucar, nunca mais vou reclamar da vida.

– Agora já é tarde, meu amigo. Você disse que não faria nenhuma diferença para o mundo. Então por que motivo eu deveria deixá-lo viver? Para você ser um fardo e um incômodo para seus semelhantes? Você não sabe especular na bolsa, não sabe montar um negócio lucrativo, não consegue inventar uma utilidade doméstica, não sabe falar uma língua estrangeira…

– Sim, é verdade, eu sei, eu sei… Mas há coisas que eu omiti, há talentos e aptidões que eu tenho e dos quais não falei…

– É mesmo? E o que você sabe fazer?

– Bem, eu sei tocar piano, dançar o minueto e fazer pequenos serviços de carpintaria.

– Isso tudo é muito bom, mas ainda é muito pouco. O que não falta neste mundo é gente que sabe tocar piano, dançar o minueto e fazer pequenos serviços de carpintaria. E eu aposto que toda essa gente pode realizar essas atividades melhor do que você.

– Sim, talvez seja mesmo verdade… Ai, meu Deus… É, você pode ter razão… Mas você precisa entender, pelo amor de Deus… Você tem que entender…

– Entender o quê?

– Há coisas que eu sei fazer e que ninguém mais pode fazer…

– Não brinca!

– Sim, é verdade, eu juro! Eu sei fazer um… um… um…

– Não seriam dois?

– Não, não, é sério! Eu sei fazer mágica. Trabalhei durante alguns anos com um famoso guru indiano e aprendi com ele a fazer um homem se tornar invisível.

– Mesmo?

– Mesmo!

– Bem, mas isso não faz de você uma singularidade. Se você aprendeu esse truque com alguém, isso significa que não é o único a possuir essa habilidade.

– Isso seria verdade se o guru que me ensinou o truque não tivesse morrido. Mas já faz uma década que ele bateu a caçoleta.

– Acho que você está querendo me enganar – eu disse, ameaçando apertar o gatilho.

– Não, não, eu juro que é verdade – gritou ele, fora de si.

E, para demonstrar que não estava de brincadeira, ele saltou do sofá e se postou no meio da sala, como se quisesse ser visto por uma plateia imaginária. Depois pediu que eu fechasse os olhos, alegando que sem isso sua mágica não poderia funcionar. Sem ignorar o que ele pretendia, fechei os olhos e fiquei esperando… Quando tornei a abri-los, o charlatão já não estava lá. Havia efetivamente se tornado invisível.

Depois desse dia, ele andou sumido por um tempo, e ninguém teve notícias dele. Por fim, transcorrido uns seis meses, soube, por um amigo comum, que ele havia se mudado de cidade, casado com uma bela moça, arrumado emprego numa carpintaria e tornado invisíveis para os outros todas as suas mágoas.

Crédito da imagem: https://bit.ly/2LlQ3tU.

 

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