Filosofia

Eu – eu quem?

O espelho que encaro reflete uma imagem. Nela, à frente de um fundo composto por objetos inanimados, sobressai uma porção de matéria que vive, respira e se move. Sou eu, este que escreve. Mas quem sou eu?

A carteira de identidade afirma que sou um tal de Carlos Augusto Xavier. Muito bem. Mas isso é o que eu sou ou é apenas o nome que me deram? Suponhamos que, em vez de Carlos Augusto Xavier, eu me chamasse Ricardo Vasconcelos de Abreu, ou João Roberto da Costa. Em qualquer um desses casos, seria eu algo diferente do que sou, ou seria exatamente o que sou? O que sou está em mim ou pertence ao nome que carrego?

Se o que eu sou pertence ao nome que carrego, então bastaria existir outro Carlos Augusto Xavier no mundo (o que é facílimo acontecer) para que eu deixasse de ser uma pessoa singular. Sim, pois neste caso eu e esse outro Carlos Augusto Xavier teríamos os mesmos gostos, as mesmas preferências, os mesmos ideais, os mesmos sonhos, as mesmas aversões, as mesmas carências, as mesmas potencialidades, os mesmos talentos, os mesmos receios – em suma, os mesmos tudo… Tal hipótese me parece tão absurda quanto a existência de um círculo triangular, pois, se o fato de ter o mesmo nome faz com que duas pessoas tenham a mesma personalidade, então na China, na Coréia e em outros países asiáticos, onde quase todos se chamam Lee, Park, Song etc., não existiria um único ser individualizado, distinguível dos outros. Cada um seria uma réplica de alguns de seus patrícios. E, no entanto, suponho que não deva ser assim que as coisas se deem por lá. Se dois Lees cortejarem uma coreana em idade núbil, imagino que ela não escolherá o futuro marido de forma aleatória, na base do “tanto faz um ou outro”, como deveria acontecer se ambos fossem iguais em tudo. Pelo contrário, procurará descobrir quais as diferenças entre eles para poder se decidir, pois todo mundo sabe que a aparência física, a progenitura, a educação recebida e as experiências vividas exercem maior influência na formação da personalidade do que o nome de batismo.

Uma consequência absurda desta hipótese seria a seguinte: qualquer pai poderia fazer do filho um gênio, desde que tivesse a esperteza de lhe dar o mesmo nome de alguns gênios que já passaram pelo mundo… O conhecimento das leis que regem o universo daria um grande salto, imagino, pois não faltariam pais a batizar os filhos de Isaac Newton, Albert Einstein ou Werner Heisenberg. Isso, claro, se ainda houvesse seres humanos vivendo sobre a Terra, pois, da mesma forma como uns reverenciam o que é bom, muitos outros exaltam o que não presta. Imagina tu quantos admiradores de Hitler dariam a seus pimpolhos o nome do maldito… E se um só já fez todo aquele estrago, um exército deles espalhado por aí, tendo à disposição o tipo de armas que existem hoje, não deixaria sobre a Terra um só ser vivente.

O que sou, portanto, tem que estar em mim e não no nome que carrego. É a única forma de evitar o absurdo. Neste caso, tanto faria que eu me chamasse Carlos Augusto Xavier ou qualquer outra coisa, porque, fosse qual fosse o meu nome de batismo, eu seria exatamente o que sou. Mas isso ainda não responde à questão: afinal, o que é que eu sou? Suponhamos que houvesse no mundo não apenas um Carlos Augusto Xavier, mas um continente inteiro habitado por milhares, milhões de Carlos Augusto Xavier. Definido que o que sou está em mim e não no nome que carrego, tu haverias, tal qual aquela coreana diante dos Lees, de querer me diferenciar desses outros Carlos Augusto Xavier. Pergunto: como farias? De que modo mostrarias que existe em mim algo que é só meu, algo que não existe em nenhum desses homônimos, algo que me define e me particulariza? Repara bem que isso é a mesma coisa que perguntar: de que modo farias aflorar a verdadeira essência do meu ser? De que modo revelarias o segredo da minha individualidade? De que modo desnudaria o mistério do meu eu?

Poderias responder que, pela comparação dos ascendentes, seria possível distinguir-me desses outros homônimos. Seguindo este método genealógico, constatarias que nenhum desses Carlos Augusto Xavier teria os mesmos genitores que eu. Um seria filho de um certo Fúlvio Batista e de uma certa Magda Pereira, outro de um Ernesto Dourado e uma Helga Moreno, um terceiro de um Mário Coutinho e de uma Elvira Macedo, e assim por diante. Mas nenhum deles teria como pais o senhor Hugo Gonçalves Xavier e a senhora Ieda Gomes de Alencar, a dupla que me trouxe a este mundo. Ficaria assim solucionado o mistério, dir-me-ias, e eu poderia dizer a todos que sou o Carlos Augusto Xavier que é filho do Hugo Gonçalves Xavier e da Ieda Gomes de Alencar. Mas pergunto: seria o bastante? Estou de acordo em que me diferenciarias dos outros Carlos Augusto Xavier e que, a partir de teu método genealógico, ninguém mais poderia me confundir com qualquer um dos meus multitudinários homônimos. Mas ser o Carlos Augusto Xavier que é filho do Hugo Gonçalves Xavier e da Ieda Gomes de Alencar diz alguma coisa sobre quem eu realmente sou ou apenas esclarece a minha filiação? Desde quando o rótulo colado na embalagem do produto desnuda-lhe a essência? Suponhamos que, numa entrevista de emprego, a psicóloga me perguntasse: “Carlos Augusto Xavier, quem é você?”, e eu respondesse: “Sou o Carlos Augusto Xavier que é filho do Hugo Gonçalves Xavier e da Ieda Gomes de Alencar”. Acreditas que ela se daria por satisfeita com tal resposta? Não achas que ocorreria a ela retrucar: “Este, senhor, é apenas o teu nome de batismo e a tua filiação. Mas isso não diz nada sobre quem tu realmente és”?

Como então eu poderia me apresentar a ela de forma apropriada? O que eu poderia dizer a meu respeito que revelasse a minha verdadeira essência, o segredo daquilo que eu realmente sou? Responder-me-ás talvez que eu deveria falar sobre as minhas preferências, os meus interesses, os meus passatempos, as minhas loucuras e tudo aquilo que compõe a minha personalidade. Concordo que, neste caso, é bem possível que tal resposta satisfizesse a minha entrevistadora. Mas quererá isso dizer que ela teria motivos para ficar satisfeita? Em outras palavras, isso solucionaria realmente o mistério do meu eu? Explicaria de fato o enigma da minha singularidade? Ou será que a esfinge continuaria rindo da nossa cara e se preparando para nos devorar?

Suponhamos que, dois dias depois dessa entrevista, minha vida fosse sacudida por acontecimentos extraordinários, daqueles que alteram a nossa maneira de ver o mundo, que redefinem nossas prioridades, nossos desejos, nossas metas, nossas expectativas – em suma, que modifica a nossa personalidade. E suponhamos que, antes de dar o aval para a minha contratação, aquela psicóloga quisesse me submeter a um novo ritual de tortura, isto é, a uma nova entrevista. Quando ela me perguntasse “Carlos Augusto Xavier, quem é você”, eu teria que lhe dar uma resposta diferente da que lhe dera da vez anterior, pois o meu eu teria mudado nesse ínterim. Isso prova que há muitos eus escondidos atrás do nosso eu, que basta a ocorrência deste ou daquele evento, deste ou daquele fato, para que nos tornemos outra coisa, às vezes para que nos revelemos outra coisa… Parece-me fora de dúvida que ninguém sabe realmente o que é, que aquilo que cada qual pensa ser é apenas o nome fantasia da firma… Sob certas circunstâncias, quantos que se julgam fracos e medrosos mostrariam ser fortes e audazes?; quantos que se consideram altruístas e benévolos descobririam ser egoístas e malignos? quantos que se veem como impolutos e incorruptíveis seriam obrigados a admitir que são rapaces e venais? Para que um homem pudesse saber quem realmente é, seria preciso que ele vivesse todas as experiências possíveis, que fosse submetido a todos os acasos, que fosse tentado por todas as ofertas… Sem isso, o que ele poderia dizer de confiável sobre si mesmo?

Considerando tudo isto, não faz muita diferença que, numa entrevista de emprego, eu diga “Sou o Carlos Augusto Xavier que é filho do Hugo Gonçalves Xavier e da Ieda Gomes de Alencar”, ou então “Sou o Carlos Augusto Xavier que sonha ser presidente da república, que gosta de futebol, de cinema e de música, que lê o jornal no café da manhã, que integra o coro da igreja, que faz serviço voluntário nos sanatórios etc.?” Para aquela psicóloga, decerto faria toda diferença; esta segunda resposta parecer-lhe-ia muito mais completa do que a primeira. Mas a sua satisfação não se deveria muito mais à sua ignorância do que à qualidade da minha resposta?

Tendo chegado a tais sutilezas, nem vale a pena gastar o tempo com as possíveis respostas que os simplórios dariam para a pergunta: “quem sou?” Uns argumentariam que eu sou um humano, isto é, um exemplar da espécie homo sapiens. Mas o que é um humano?… De que vale substituir um mistério por outro? Ser humano é, porventura, menos enigmático do que esse “eu” indecifrável que me atormenta? Não é crível. Sou humano porque tenho um cérebro desenvolvido que me habilita a fabricar pensamentos ou porque tenho essa aparência especial que me distingue dos outros animais? Ou será que sou humano porque posso me perguntar sobre o que é ser humano? Seja lá o que signifique ser humano, isso apenas me identificaria como membro de uma determinada espécie animal, o que é pouco para me diferenciar dos outros humanos. Afinal, não sou diferente dos demais membros da espécie a que pertenço?  Não sou diferente de ti, que estás agora lendo estas sofridas elucubrações? Ou da minha mãe, do meu pai, do meu vizinho e do meu professor? Se a resposta para essas indagações é afirmativa, então a pergunta acima continua sem solução.

Os religiosos diriam que sou filho de Deus. Mas em que essa resposta é diferente da anterior? O equívoco não é o mesmo, ou seja, o de mudar a localização do mistério? Afinal, quem é Deus? Aliás, Deus existe ou é só uma ilusão fabricada por homens medrosos e carentes de um pai celestial que os proteja? Se Deus existe, como poderei saber o que ele é para lograr descobrir o que eu sou? Através da Teologia? Mas que diabos um teólogo sabe sobre Deus além daquilo que inventa para poder ludibriar os incautos e oferecer a si mesmo uma desculpa para o parasitismo social? É preciso concordar com aquele autor que afirmou o óbvio: a Teologia é um ramo da ignorância… Se sou filho de Deus, isso anula qualquer possibilidade de um dia eu vir a compreender o meu próprio enigma. Melhor seria interromper a busca aqui mesmo e ir plantar batatas.

Além disso, ser filho de Deus me diferenciaria em que em relação aos outros homens? Ora, não são eles todos filhos de Deus? Pior: considerando que Deus é o criador de todas as coisas, não poderiam todas essas coisas, da ameba a uma supernova, reivindicar a mesma paternidade? Em que então essa ascendência divina me distinguiria de tudo o que existe? Em que eu seria diferente da traça que rói um livro ou de um asteroide que vagabundeia pelo espaço? A objeção de que só nós humanos somos filhos de Deus, de que essa designação é exclusiva dos seres a quem Deus fez à sua imagem e semelhança, a quem ele concedeu o poder de pensar, é vã e infrutífera, pois não elimina a primeira dificuldade. Afinal, em que eu seria diferente dos outros seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus?

Os religiosos ainda poderiam argumentar que sou um composto de corpo e alma, sendo a alma um princípio imortal que nos foi concedido pela graça de Deus e que sobrevive à morte do corpo, para ir viver num paraíso de bem-aventurança, caso nossos méritos tenham nos habilitado para esse destino. Neste caso, o meu eu seria a minha alma. Mas isso também não nos tira dos domínios da charlatanice, já que a mudança dos termos de um enunciado não é uma forma de revelar o oculto. Desde quando rebatizar o “eu” para “alma” diz alguma coisa sobre a sua natureza? Se um astrônomo chamasse a matéria escura de substância enegrecida, saberíamos algo mais sobre ela do que sabemos atualmente?

Torturado por essas dúvidas, e incapaz de resolvê-las por mim mesmo, decidi tempos atrás pedir auxílio a outras pessoas. Quem sabe alguém pudesse me ajudar a desvendar o mistério do meu eu, da minha desconcertante singularidade. Comecei com minha mãe:

– Mãe, quem sou eu?

A boa mulher me olhou com espanto e incredulidade, como olharia para alguém que, fazendo a refeição, em vez de levar a comida à boca, fizesse-a entrar pelos ouvidos.

– Ora, meu filho. Você é você – respondeu ela, com simplicidade.

– Mas isso eu sei, mãe…

– Ué, se sabe, então por que perguntou?

Fiquei bastante contrariado com a insolência dela, como teria ficado se tivesse levado uma bronca por um delito cometido por outrem. Mas não desisti de tentar achar uma resposta e decidi perguntar ao meu irmão:

– Rômulo.

– Fala, tampinha.

– Quem sou eu?

– Você é um palhaço – rosnou ele, imaginando certamente que eu estava fazendo-o, ou fazendo-me, de bobo.

Talvez fosse melhor, pensei, indagar alguém de fora do meu círculo familiar. Fui perguntar a um amigo:

– Fontana, quem sou eu?

Ele olhou para mim como se não tivesse entendido a pergunta. Tive que repeti-la:

– Fontana, quem sou eu?

– Como assim “quem sou eu”? – retrucou ele, irritado. – Que espécie de pergunta é essa? Bebeu água da privada?

Depois de inquirir outras pessoas do meu círculo de convivência, percebi que ninguém sequer entendia o propósito da minha indagação. Enraivecidos, todos me tomavam por trocista ou demente, e houve pelo menos um que me ameaçou com pontapés e sopapos. “Será que as pessoas não se fazem nunca essa pergunta?”, comecei a me perguntar. “Como alguém pode construir frases com o pronome ‘eu’ sem saber direito o que ele próprio é?” “Eu bati o carro num hidrante”, disse um dia a minha tia Constança. Como ela sabia o que era “bater” se não sabia o que era “eu”? Será que não incomodava às pessoas atribuir ações ao que elas não conheciam?

Minha última esperança era um filósofo chamado Saulo Damasceno, que escrevia artigos toda sexta-feira num dos principais jornais da cidade, além de dar aulas na universidade local. Tendo sido informado de que ele lecionava na quarta-feira, fui vê-lo:

– Professor Saulo, o senhor pode me dizer, por obséquio, quem sou eu?

– Desculpe, meu rapaz, não posso. É a primeira vez que te vejo – murmurou ele, triste por não poder me ajudar.

– O senhor não entendeu a minha pergunta. Não quero saber qual é o meu nome, nem de quem sou filho, nem onde moro, nem nenhuma dessas coisas. Não estou com amnésia. O que eu quero saber é o seguinte: o que eu sou? Melhor dizendo: o que é esse “eu”?

– Ah, meu caro – exclamou ele, sorrindo –, se eu soubesse a resposta para essa pergunta, escreveria um livro, faturaria milhões e ganharia um prêmio acadêmico.

Saí da faculdade desolado. Como é possível que o ser humano, que se crê distinguir das outras espécies animais precisamente pela posse da inteligência, não seja capaz de responder a uma pergunta tão prosaica, tão banal? E se não sabemos sequer o que é o nosso eu, não é muita presunção querer saber sobre aquilo que está fora de nós, como o mundo que nos cerca, as rochas, as montanhas, os pássaros, os tigres, os rios, os oceanos, os planetas, as galáxias, as leis que regem o funcionamento do universo? Não é isso querer resolver o problema na casa do vizinho quando não resolvemos nem o da na nossa própria casa?

Se as coisas já pareciam ruins, elas ficaram piores quando percebi que podia estar fazendo a pergunta errada. A pergunta “quem sou eu?” não negligenciava uma anterior? Não admitia como verdadeira uma premissa que deveria ser preliminarmente confirmada? De fato, como eu sabia que existia um “eu”? Existia mesmo esse “eu”? É preciso não confundir a minha pergunta com aquela formulada por Descartes. Eu não estava duvidando da realidade da minha existência ou da existência do mundo. Eu existia, isto é, existia um agrupamento de células dispostas de certa maneira e a que todos chamavam Carlos Augusto Xavier. Meu corpo era, para mim, uma realidade indubitável, assim como o mundo em que ele se movia. Mas essa coisa chamada “eu”, ela realmente existia? Como eu poderia provar sua existência? Certamente não pelo mesmo recurso cartesiano. Eu poderia, é claro, dizer como o filósofo francês: “penso, logo existo”. Mas como passar daí para: penso, logo existe um “eu”? Por estranho que pareça, pensar não indica necessariamente que exista um “eu”. Pensar pode ser apenas uma função do cérebro. E se quem pensa é o cérebro e não o “eu”? Pensar por acaso é diferente de secretar hormônios? Quando uma glândula qualquer secreta hormônios, ninguém vê necessidade de atribuir esse fenômeno a um “eu”. Atribuímo-lo sem qualquer constrangimento à tal glândula. Por que então não poderia ser o cérebro que pensa em vez do “eu”? Alguém já viu o “eu”?

Essa linha de raciocínio, não demorei a perceber, levava a uma conclusão aterradora. Com a tecnologia da clonagem, hoje já é perfeitamente possível criar uma cópia de um ser humano em tudo idêntico ao ser humano original do qual ela se originou. Isso significa que poderia haver por aí um Carlos Augusto Xavier igual a mim em tudo, com o mesmo corpo, a mesma aparência, o mesmo cérebro e, sendo o cérebro que produz o pensamento, esse Carlos Augusto Xavier pensaria tudo o que eu penso… Nesse caso, eu não poderia alegar que sou diferente de todos os outros humanos que existem por aí. Alguém seria igual a mim. Portanto, se não existe um eu, a possibilidade da clonagem humana eliminaria aquilo de que mais temos orgulho, ou seja, a nossa singularidade, a ideia de que somos um fenômeno único e irrepetível no universo, de que ninguém é exatamente igual a nós. Como aceitar isso?

Comecei a pensar que havia alguma coisa errada nas minhas reflexões, que aquilo não podia estar certo. Que pudesse haver duas pessoas iguais era assombroso. Não, eu errara no raciocínio, com certeza. Mas onde estava o erro? Por mais que eu o procurasse, não conseguia localizá-lo. Onde ele se escondera?

Tentei me agarrar à desesperada ideia de que, mesmo na hipótese de ser o cérebro que pensa, isso não eliminaria a possibilidade de existência do eu. O eu poderia ser um produto desse cérebro, tanto quanto os nossos pensamentos. Mas se não é o eu que pensa, que retém memórias, emoções e sentimentos, o que ele é senão uma casca vazia e imprestável? Além disso, dizer que o eu é um produto do cérebro implica dizer que o eu é uma entidade separada do cérebro, ou seja, que tem uma existência independente. Mas se é assim, por que tudo o que afeta o cérebro afeta também o eu? Por que, quando o cérebro se danifica, o eu sofre as consequências? Comecei a lembrar da minha finada avó, que naquela época sofria do mal de Alzheimer. A minha avó preservava o mesmo corpo dos últimos anos, a ponto de eu saber que ela era a minha avó e não outra pessoa. No entanto, a minha avó não retinha mais nada na memória. Ela não sabia quem eu era, quem era minha mãe, sua filha, nem quem eram os seus outros parentes. Vivia num país estrangeiro no qual todas as pessoas lhe eram desconhecidas e talvez ameaçadoras. Ora, se a minha avó tinha um eu, onde ele estava? Em que lugar ele se escondera?

Depois de um tempo, comecei a achar que estava ficando louco e resolvi me internar num sanatório. Internei-me não só porque receava a qualquer momento perder o juízo e fazer uma besteira, mas também porque tinha a esperança de ali poder encontrar a solução para o mistério que me afligia. Se as pessoas razoáveis não podiam responder às minhas interrogações, se nem ao menos eram capazes de entender os motivos da minha inquietação, quem sabe um louco pudesse compreender o propósito das minhas dúvidas e me dar uma resposta? Comecei perguntando a um sujeito que garantia ter morrido sete anos antes num bombardeio aéreo desferido pelas forças nazistas contra a cidade de Fortaleza. Na ocasião, ele se encontrava em Basiléia, na Suíça.

– Jumar, amigo, quero lhe fazer uma pergunta.

– Faça.

– Existe um “eu”?

– Existe – respondeu ele, peremptoriamente. – O Eu esteve comigo na Guerra do Paraguai.

Em seguida, fui interrogar outro paciente. Este tinha certeza de que era filho da Lua e de Saturno. Perguntei:

– Haroldo, existe um “eu”?

Ele respondeu:

– Mas é claro que existe. O eu é o você, e o você é o nós…

Como se vê, nem mesmo os loucos puderam me ajudar a solucionar o mistério do meu eu. Saí do sanatório tão ignorante quanto nele entrei. Ainda hoje continuo ignorando se o “eu” existe e, se existe, o que diabos é.

Crédito da imagem: https://bit.ly/2sT5ELn.

 

 

 

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