Feminismo

Feminismo e androcídio

Como se para confirmar essa argumentação, já se conceberam sociedades inteiramente compostas por mulheres. Um dos primeiros mitos de uma sociedade feminina é o das amazonas. Tendo em vista nossos objetivos, o mais importante a respeito das amazonas não é o fato de elas terem sido guerreiras “equivalentes aos homens”, capazes de combatê-los e até derrotá-los; mas o fato de que viviam sozinhas, sem homens. Como elas conseguiam viver assim e ainda ter filhos é tema de várias lendas, muitas datadas de um período comparativamente tardio. A reprodução se dava por meio de encontros periódicos com os homens de tribos vizinhas. Quando nasciam meninas, elas eram mantidas e criadas. Os meninos eram mortos ou devolvidos aos pais.

O impacto do mito das amazonas na imaginação das pessoas é tão forte que gerou inúmeras imitações. Assim, em Mizora (1890), Mary E. Bradley descreve um mundo de Brunildas loiras e poderosas, cuja descoberta do “segredo da vida” lhes permitiu eliminar todos os homens. Em Herland (1915), de Charlotte Perkins Gilman, depois de se livrar dos “brutais conquistadores homens”, as mulheres passam a viver isoladas num platô amazônico. A princípio, imaginaram que a raça pereceria com a ausência de descendentes. Porém, graças a um milagre inesperado, elas não apenas começaram a se reproduzir por partenogênese como só davam à luz meninas. Diferentemente das amazonas originais, essas mulheres eram incapazes de se defender contra o sexo masculino. Para viver à visita inesperada de três homens, a localização de seu país teve que ser escondida; o caráter desses homens pode ser avaliado pelo fato de terem cumprido a promessa de não revelar o segredo em troca de serem libertados.

Não é de surpreender que a segunda onda do feminismo, que ocorreu nos anos 1960 e 1970, também tenha gerado uma nova safra de lendas. Em The female man [O homem feminino] (1975), de Joanna Russ, a maioria dos homens era morta por uma doença misteriosa que afetava apenas os do seu sexo. Os sobreviventes eram despachados por Jael, uma fúria de unhas de aço retráteis que odiava os homens; os filhos eram gerados pela união dos óvulos. Em Wanderground [O caminho percorrido] (1978), Sally Gearhardt alcançava o mesmo efeito por “implantamento” e pela “fusão de óvulos”. As crianças que nasciam tinham a boa fortuna de serem criadas por sete mães; outras utopias feministas sugerem que as crianças sejam educadas por máquinas, para que suas mães tenham a liberdade de cuidar do próprio desenvolvimento espiritual. De fato, não é impossível que a fertilização de óvulos sem esperma – a partir da manipulação do código genético, que existe em todas as células do corpo – um dia se torne realidade. À medida que a ciência aprende a separar os espermatozoides femininos dos masculinos, até mesmo o sonho feminista radical de “eliminar o cromossomo Y” pode vir a se realizar.

Até que esse dia chegue, pode ocorrer às mulheres a ideia de manter alguns homens em cativeiro, tanto para se reproduzirem quanto para se divertirem sexualmente. Gearhardt sugeriu em um ensaio que eles fossem limitados a 10% da população; em Les Guerilleres [As guerrilheiras], Monique Wittig se dispõe a deixar alguns homens vivos. Desde que aceitem uma sociedade feminista e primitivamente comunista; desde que não reivindiquem nenhum filho que tenham gerado; e desde que usem o cabelo comprido. Algumas visionárias sugeriram aplicar nos homens injeções para induzir a lactação ou ensiná-los a responder pavlovianamente “ao doce repique dos sinos”, providenciando ereções sob encomenda. Já os autores do sexo masculino quase nunca pensaram em livrar o mundo das mulheres, em parte porque percebem eu elas são indispensáveis, em parte porque gostam muito delas.

Crédito da imagem: https://ocaisdamemoria.com/2015/07/18/1610-morte-do-pintor-caravaggio/

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