Feminismo

O feminismo como sistema fechado

De todas as contribuições que o Who Stole Feminism (Quem roubou o feminismo) da Christina Hoff Sommers deu para entendermos a tal da terceira onda do feminismo, talvez a mais valiosa seja a ideia de que o feminismo é um “sistema fechado”. Nesse tipo de sistema, as ideias, para usar a terminologia popperiana, não são falseáveis, ou seja, não são passíveis de ser refutadas. É o velho truque da religião. Se você ganha na Mega-Sena, conquista a mulher da sua vida e realiza seu sonho profissional, isso é tomado como prova de que Deus é bom e quer o seu melhor. Mas se você perde o emprego, é chifrado pela sua esposa, descobre que está com câncer e é atropelado por um caminhão desgovernado, é porque Deus tem um plano maior para a sua vida… Ou seja, não existe um jeito de você provar que Deus é mau ou que, pelo menos, não dá a mínima pra você.

Um sistema fechado, como se vê, não apenas torna uma ideia impossível de ser contraditada. Para sustentá-la, em precisa transformar uma coisa no seu contrário. No exemplo acima, o que deveria ser uma prova da maldade ou da indiferença de Deus acaba sendo interpretado como uma prova da sua bondade e do seu amor. É por isso que nunca chegar a passar pela cabeça do crente a ideia de que o verdadeiro criador de todas as coisas é o Demônio, embora essa seja uma forma bem mais coerente, do ponto de vista intelectual, de resolver o chamado problema do mal, que pode ser expresso assim: por que existe o mal num mundo que foi criado por um Deus bondoso e onipotente? É que o crente tende a transformar esse mal, evidência poderosa da existência e da atuação do Demônio, num estágio anterior de um bem último que teria sido planejado por Deus.

O feminismo, que se assemelha em vários aspectos a uma religião, assemelha-se a ela também neste: ele é um sistema fechado. O exemplo que a Hoff Sommers dá para fundamentar esse diagnóstico é o seguinte: se uma mulher afirma que não é oprimida, isso apenas prova para o feminismo o quanto ela é oprimida, pois uma das astúcias do patriarcado é “socializar as mulheres para acreditar que são livres, mantendo-as assim dóceis e cooperativas”.

A primeira vez que eu percebi isso foi ao ler O complexo de Cinderela, da Colette Dowling . Nesse livro, ela menciona um estudo feito entre a população branca de todas as classes sociais americanas que descobriu que os pais são mais rápidos para socorrer as filhas do que os filhos que choram. Quando as bebês choram, os pais largam o que estão fazendo e vão protegê-las e acarinhá-las. Já quando os bebês choram, os pais não têm tanta pressa.

Para mim, era muito claro que isso era um privilégio feminino. O que o tal estudo mostrava era basicamente o seguinte: quando você nasce mulher, você recebe palanque para gritar de dor e se habilita a ser objeto da compaixão alheia. São dois privilégios que os homens não têm. Quando você nasce homem, não importa qual seja o problema que você tenha, grande ou pequeno, as pessoas vão olhar para você e dizer: “Se vire!”, “Seja homem!”.

Só que a Colette Dowling é feminista e, como feminista, ela opera dentro de um sistema fechado. Nesse sistema fechado, privilégio é uma coisa masculina, as mulheres não sabem nem o que isso é. Então o que você faz quando se depara com um fato que demonstra que as mulheres têm um determinado privilégio? Você inverte as coisas… Para Colette Dowling, o fato de as bebês receberem mais proteção, atenção e carinho do que os bebês não é um privilégio feminino, mas masculino. Isso porque, ao agir assim, os pais educam o menino para ser independente e a menina para ser dependente…

Agora vamos supor que o tal estudo tivesse descoberto o contrário, ou seja, que os pais concedem mais proteção, atenção e carinho aos meninos do que às meninas. Não é difícil imaginar o que Colette Dowling diria nesse caso. Eu aposto o dedo mindinho da minha mão que ela diria que isso é um privilégio masculino, que desde o berço as mulheres são roubadas pelos homens etc. Ou seja, A e – A provam que a mulher é oprimida.

Todas as outras vezes que eu debati com uma feminista, deparei-me com o mesmo ardil intelectual. As feministas alegam que os homens são socializados para agredir as mulheres. Nós deveríamos esperar então que houvesse muito mais mulheres do que homens sendo assassinadas. Se o cenário fosse esse, elas fatalmente protestariam: “Tá vendo como os homens oprimem as mulheres?” Contudo, o cenário é o oposto. Das cerca de 60 mil vítimas de homicídio no Brasil, 55 mil são homens. Mas esse desmentido da própria realidade não é suficiente para forçar uma feminista a abandonar sua teoria, porque ela pode alegar que as mulheres morrem sob condições diferentes e especiais: enquanto o homem morre de forma aleatória, a mulher morre pelo simples fato de ser mulher… Ou seja, B e – B…

Considere o problema da violência doméstica. Se os homens são socializados para agredir mulheres, deveríamos esperar também que os homens estivessem batendo muito mais que as mulheres. Nos países em que isso ocorre, o fato é usado para provar que as mulheres são oprimidas pelos homens. Mas quando você informa sobre as pesquisas que mostram que em vários países ocidentais as mulheres estão batendo pelo menos tanto quanto os homens (em alguns casos mais), o que faz uma feminista? Introduz o argumento de que a mulher está apenas se defendendo… Ou seja, C e – C…

Há momentos em que a obsessão feminista por provar que a mulher está sendo oprimida gera argumentos surreais. Em O mito do poder masculino, Farrell mostra que as mulheres estão vivendo hoje no Ocidente cerca de 7 anos mais do que os homens (essa diferença no passado foi de apenas 1 ano). Mas como as feministas não podem admitir que as mulheres têm privilégios, isso acaba sendo transformado num privilégio masculino. Veja o que diz, por exemplo, a assistente social porto-riquenha Carmen Delia Sánchez Salgado no artigo MULHER IDOSA: a feminização da velhice.

Como resultado da desigualdade de gênero na expectativa de vida, existe uma maior proporção de mulheres do que de homens com idade avançada. Os problemas e mudanças que acompanham essa etapa de vida são predominantemente femininos, pelo que se pode dizer que a velhice se feminilizou. As mulheres são discriminadas por preconceitos sexistas e gerofóbicos: não só por serem mulheres, mas também por serem velhas. Este artigo discute aspectos em que as mulheres se veem afetadas quando envelhecem, tais como: discriminação e gerofobia, pobreza e solidão, mudanças e perdas físicas e sociais. Apresenta, ainda, os aspectos positivos de ser mulher e idosa.

Cuma? Quer dizer que um dos efeitos a opressão contra as mulheres é a longevidade feminina? Quer dizer que, por ser oprimida, a mulher vive mais? E se as mulheres estivessem vivendo 7 a menos que os homens? O que isso provaria?

É por essas e outras que é inútil e extremamente cansativo debater com uma feminista. Se você cair nessa tentação um dia, faça um favor a si mesmo: exija que ela estabeleça as condições em que a teoria dela seria refutável. Em outras palavras, exija que ela te responda à seguinte pergunta: “Que fatos provariam que você está errada?” Por exemplo, eu defendo a teoria de que os homens são violentos porque sempre se encarregaram de produzir a violência quando necessário. Quando foi preciso caçar, nós chamamos os homens. Quando tem guerra, nós chamamos os homens. Se a Terra amanhã for invadida por ETs, nós vamos chamar os homens. Essa teoria é falseável pelo menos de duas formas: uma, você pode mostrar que os homens não ficaram responsáveis pela produção da violência, que, quando foi preciso descer o cacete nos outros, nós chamamos as mulheres; duas, você pode mostrar que, mesmo nos lugares e nas ocasiões em que as mulheres ficaram com o encargo de produzir a violência, os homens ainda se mostraram mais violentos do que elas. Se a sua debatedora não for capaz de fazer algo desse tipo, fuja o mais rápido que puder.

Também é por essas e outras que as mulheres estão sempre insatisfeitas e cada vez mais irritadas. O sistema fechado torna impossível para elas perceberem os privilégios que têm, porque cada privilégio feminino é transformado num privilégio masculino. É por isso que, quando você debate com uma feminista e fala dos privilégios femininos, ela olha para você com perplexidade e escárnio, como se você tivesse acabado de falar de unicórnios, basiliscos e centauros. Certa vez, quando eu disse para uma amiga feminista que não pode haver privilégio maior do que ter alguém para morrer no seu lugar, e exemplifiquei com o fato de que, nos momentos de perigo, os homens muitas vezes sacrificam a vida para salvar mulheres e crianças, ela retrucou que os homens aceitam ficar para trás porque precisam fazer uns agradinhos para as mulheres para poder oprimi-las…

Crédito da imagem: https://amenteemaravilhosa.com.br/eu-nao-quero-ser-sua-amante/.

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