Filosofia

O suicida

O que vinha de fora era alheio e inexplicável, como um enigma jamais decifrado e talvez nem mesmo entendido. Buzinas, vagidos, miados, brados inócuos, gonzos enferrujados… O relógio ainda conservava sua utilidade para todos, apesar da manifesta ausência de sentido. A noite do desespero ainda não chegara com sua provisão de dores, remorsos e calmantes.

No quarto, agora refeitório de baratas, de móveis envernizados por camadas de tristeza, um moribundo agonizava, só, sem enfermeira ou parente que o assistisse, enfim privado do último narcótico. O destino da esperança não é diferente do das coisas. Com o tempo se deteriora, desvaloriza, esgota, com mais lentidão, é verdade, mas de forma irreversível e irresgatável.

Atrás da porta, o bilhete com a sentença solitária: “Só há uma coisa da qual eu me arrependo: não ter feito antes”. Ali resumida toda a biografia da dor e toda a genealogia do desespero, todo o abecedário das desilusões e dos fracassos, a síntese completa dos inumeráveis motivos, a justificativa de um gesto, para muitos, sem qualquer justificativa. Que motivos teria um jovem de 27 anos para se matar?

Ele se levantou da cama e, sem hesitações, caminhou até a mesa. Nem o súbito desejo de um último prazer deteve seus passos intrépidos. Nenhuma refeição especial impôs-se ao seu estômago de condenado. Tampouco necessitou de pausas para afáveis reminiscências. Agora, nem as últimas carícias de uma mulher poderiam retê-lo um pouco mais…

A visão dos libertários instrumentos atirou pela janela todo o sentimentalismo incipiente. O copo com água. A arma por carregar. Alguns gramas de cianureto, fruto de um suborno pacientemente executado. Meses de preparação reunidos ali, num testemunho de aptidão e diligência que teria feito alguém perguntar: “Será que você não pode se arranjar com alguma coisa?” Mas o efeito de uma descoberta também tem o seu tempo, e o tempo para desistir já havia passado.

Vendo os objetos sobre a mesa, ficou radiante, como um garoto a quem dão a chance de exibir um número incansavelmente ensaiado. Seria a grande realização de uma vida sem realizações, o triunfo que ofusca mil fracassos. Imagens gloriosas se multiplicavam em sua mente, condecorações imaginárias emolduravam seu peito, aplausos e homenagens retumbavam nos seus tímpanos.

Ao sentar no parapeito, espiou o que acontecia lá embaixo. Parecia espantoso, mas havia quem quisesse ficar mais um pouco. Talvez fosse elogiável adiar para os últimos estertores o reconhecimento de que tudo é vão. Talvez fosse divertido fingir que existe um propósito maior. Talvez fosse edificante ignorar que não fazemos a menor diferença. Defendemos a vida e geramos vidas… Mas pra quê?…

Executivos com celular ao ouvido fechavam negócios. Esposas ressabiadas perseguiam sorrateiras o marido infiel. Garis recolhiam a sujeira espalhada pelas ruas. Poetas rascunhavam em pedaços de papel seus lamentos infindáveis. Costureiras alfinetavam vestidos de gala para festas de madame. Bombeiros apagavam incêndios em antigos casarões. Tantas maneiras de se esfalfar… Mas pra quê?… pra quê?…

O cianureto jazia agora no fundo do copo, o tambor estava carregado, o corpo aprumado para o grande salto. De costas para a avenida, num desprezo mudo pelos que ficavam, sentiu-se pequeno ao olhar as paredes brancas do quarto, a sua volta. A razão de ser daquelas paredes era inquestionável. Dividiam os cômodos da casa, sustentavam o teto, entravam na composição de uma benfeitoria. Ele é que já não tinha serventia e, a essa altura, já nem desejava ter.

Então chegara o momento. Tudo havia sido planejado para que dele jamais escarnecessem: “Quis apenas chamar a atenção”. Que o espírito atormentado dos suicidas frustrados, se é que ele vagueia sem destino conhecido, ficasse longe, distante qualquer possibilidade de insucesso. Com três chances para a morte contra uma para a vida, uma falha parecia improvável.

A água desceu pelo esôfago queimando tudo por dentro ao mesmo tempo que a bala estraçalhava o crânio. O corpo despencou no ar, antecedido por respingos de sangue, até se estatelar na parte superior da marquise, onde iria fazer companhia ao detrito das últimas décadas. Lá embaixo se ouviu o estrondo, mas ninguém deu muita importância. Dona Isolina, que tagarelava com o porteiro sobre assuntos burocráticos, apenas bocejou.

Dias depois, ninguém ainda havia dado pela ausência do suicida, como se ele jamais tivesse existido, até que no salão de festas do prédio sentiram o fedor de putrefação. Houve murmúrios e protestos, queixas contra o síndico, sirenes de ambulância, interrogatórios policiais. Foi preciso marcar uma nova data para comemorar os 15 anos da Aninha. Enquanto isso, o espírito do defunto perguntava: mas pra quê?… Pra quê?…

Crédito da imagem:  http://accao-integral.blogspot.com/2014/04/.

 

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