Feminismo

Os privilégios da fraqueza

Na cosmovisão feminista, privilégio é aquilo que só os homens podem ter, na medida em que eles detêm o poder e o usam para oprimir as mulheres. Já as mulheres, por não terem poder e serem oprimidas pelos homens, não gozam de privilégio nenhum. A vida delas é uma sucessão de desvantagens e prejuízos, de direitos usurpados, de oportunidades negadas e de aspirações sabotadas pelos homens, esses malvados que só pensam em si mesmos.

Mas, se isso fosse verdade, deveríamos esperar que as mulheres fugissem para as montanhas, para bem longe dos seus alegados opressores, ou pelo menos que quisessem evitar contato com eles. No entanto, o que se vê é algo diferente. As mulheres não apenas estão dispostas a conviver com os homens, mas até a confraternizar com eles… São muitas as que casam e têm filhos com eles, ou que desejam casar e ter filhos com eles. Numerosas são as que, para segurar o macho relutante que ameaça ir embora, providenciam uma gravidez inesperada furando a camisinha, ou mentindo que estão tomando anticoncepcional. Há mães que, para não perder o macho, até permitem que eles estuprem suas filhas. Observa-se ainda que aquelas que não conseguem despertar o interesse amoroso dos homens, em vez de celebrarem por estar se livrando de um déspota, zangam-se e ficam ressentidas como se estivessem perdendo um tesouro. As feministas integrantes do movimento negro até reclamam da solidão da mulher negra

Este comportamento feminino só pode ser explicado por duas hipóteses: ou as mulheres são umas completas retardadas que não sabem o que é melhor para si, ou elas estão recebendo da sociedade machista e patriarcal uma cornucópia de privilégios que compensa largamente as perdas que alegam sofrer. Como as mulheres me parecem muito espertas e, às vezes, até espertalhonas, não consigo acreditar na primeira hipótese. A questão então é: que privilégios são esses que as oprimidas estão desfrutando e pelos quais são incapazes de ser gratas? Resposta: os privilégios da fraqueza…

Por essa expressão eu estou me referindo a todo um conjunto de vantagens e benefícios que são concedidos às mulheres em consideração à sua fraqueza. No artigo A dor pública e a dor privada, explorei o que considero ser a maior dessas vantagens: a sociedade só se preocupa com a dor dos fracos, o que dá a eles um palanque para gritar de dor e o poder de explorar a compaixão alheia. A dor do fraco é a dor de todo mundo enquanto a dor do forte é só dele mesmo. Isso faz com que os problemas femininos monopolizem a nossa atenção e demandem uma série de políticas públicas, enquanto os problemas masculinos são tratados como se não existissem.

Também falei do privilégio que as mulheres têm de agredir os homens, enquanto os homens não podem revidar à agressão sofrida. Se um homem revida, o mau é ele e não a mulher que iniciou a agressão. Não é à toa que o senhor Madruga sempre apanha da dona Florinda calado. Os custos sociais do revide são tão exorbitantes – ser processado e talvez preso, ter a reputação manchada, perder o emprego etc. – que é mais sábio deixar barato mesmo. Não são poucas as mulheres que se aproveitam disso.

Mulheres também não precisam fazer serviço militar obrigatório e, embora esse privilégio nada tenha a ver com a fraqueza, já que as sociedades nunca viram problema em usar meninos como soldados, é a fraqueza que é usada para justificá-lo.

Além de não precisarem defender seu país, as mulheres não precisam defender sequer a si mesmas. A sociedade permite que elas usem o corpo do homem como escudo para se proteger de uma situação de perigo, mesmo aquelas que elas poderiam ter evitado com um pouco de prudência e sabedoria. Como vivemos num país ultraviolento, as mulheres poderiam evitar andar na rua depois de certo horário (uma precaução que eu mesmo tomo). Poderiam também evitar namorar homens que elas sabem ter histórico de violência. Mas as mulheres não fazem nem uma coisa nem outra, e não é difícil entender por quê. Um homem, quando anda na rua à noite, sabe que não vai poder contar com ninguém para se proteger caso seja agredido. As mulheres, por outro lado, podem pedir que o estranho na rua as escolte até seu lugar de destino. Um homem, quando inventa de namorar uma mulher agressora, sabe que não pode contar nem com a polícia se for agredido. Já a mulher pode chamar o pai, o irmão, o amigo, o ex-namorado ou a polícia para livrá-la da encrenca em que ela própria se meteu.

Quando há um desastre – um prédio que se incendeia, um navio que naufraga etc. – as mulheres e as crianças têm prioridade no resgate. Aconteceu no naufrágio do Birkenhead em 1852, e no do Titanic em 1912. E as razões pelas quais os homens sacrificaram a vida pelas mulheres ficou clara numa reportagem publicada pela revista Brasil-Portugal dias após o desastre: os homens foram levados “até o esquecimento de si mesmo(s), até ao sacrifício da própria vida, pelos velhos, pelos fracos, pelas criancinhas”.

Recentemente, quando o US Airways 1549 pilotado por Chesley Sullenberger teve que fazer um pouso forçado no Rio Hudson, mulheres e crianças também foram resgatadas primeiro. No livro Sully – o herói do rio Hudson, Sullenberger tenta emplacar um argumento fisiológico para justificar a decisão, machista em sua essência: “Mulheres, e especialmente crianças, pesam menos que homens, por isso são mais suscetíveis à hipotermia. Também perdem força física com mais rapidez. Então fazia sentido mandá-las para os barcos antes” (p. 136). Era mais politicamente correto do que dizer que as mulheres são fracas e, tal como as crianças, precisam ser protegidas…

Uma curiosidade sobre o naufrágio do Titanic é que não apenas os homens adultos ficaram para trás para morrer. Os adolescentes também. Em Titanic – minuto a minuto, Jonathan Mayo conta que, quando um adolescente de 16 anos pulou num dos botes salva-vidas e se escondeu embaixo da saia de algumas mulheres que tentaram protegê-lo, Harold Lowe, um oficial do navio, apontou uma arma para a cabeça dele e o obrigou a se retirar. Quando o garoto insistiu em ficar, o oficial lhe disse: “Por Deus, seja homem. Temos mulheres e crianças para salvar. Temos que parar nos conveses inferiores e recolher mais mulheres e crianças” (p. 150). Quando Emily Ryerson tentou entrar num dos botes com o filho John e as filhas Suzette e Emily, o oficial Charles Lightoller tentou impedir a entrada do garoto. Arthur, o pai do menino, que morreria no naufrágio, replicou: “Mas é claro que o garoto vai com a mãe. Ele só tem 13 anos!” Contrariado, Lightoller acabou permitindo que John entrasse no bote, mas acrescentou: “Nada mais de garotos!” Foi por essas e outras que muitas mães, para salvar seus filhos, tomaram a decisão de disfarçá-los de meninas. A mãe de Billy Carter Jr., de 10 anos, colocou um chapéu de menina na cabeça do garoto, para evitar que Lightoller o achasse muito velho (p. 170).

Esses são apenas alguns dos privilégios da fraqueza que as mulheres desfrutam nesse mundo. Eu poderia citar muitos outros, mas não é preciso. As feministas, que operam dentro de um sistema fechado que as impede de enxergar os privilégios das mulheres, vão jurar de pés juntos que nada disso é privilégio. Mas, se ter alguém para morrer por você em tempos de guerra ou quando o navio afunda não é um privilégio, é difícil saber o que é um privilégio. Imagine a gritaria que essas mesmas feministas estariam aprontando se nós estivéssemos enviando meninas para o campo de batalha em vez de homens adultos, e se se, no naufrágio de um navio, sacrificássemos a vida das garotas para poupar a vida de marmanjos.

Crédito da imagem: https://gq.globo.com/Corpo/noticia/2013/08/cavalheirismo-inspira-novo-perfume-da-givenchy.html.

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