Feminismo

Se o mundo fosse governado pelas mulheres, não haveria guerras

Chega a ser incrível como certas ideias se apoderam da mente das pessoas não apenas quando não existe nenhum fundamento que as sustente, mas até mesmo quando abundam fatos que as desmentem. A crença de que, num mundo governado por mulheres, não haveria mais guerras é um bom exemplo. A frase, repetida ad nauseam pelos adeptos do ginocentrismo, revela uma profunda ignorância do que é a guerra.

Quando se fala em guerra, a primeira coisa que vem à mente das pessoas é a imagem de uma batalha campal, em que dois exércitos inimigos, ao toque de uma trombeta ou de qualquer outro sinal convencionado, avançam em direção um ao outro e se agridem mutuamente. Pelo menos é o que me vem à cabeça quando eu penso em guerra, mesmo sabendo que hoje as formas de guerrear sejam bem diferentes e envolvam tecnologias que dispensam o confronto corpo a corpo. De todo modo, qualquer que seja a imagem evocada por uma pessoa ao ouvir a palavra guerra, é certo que essa imagem tem a ver com um conflito em que os combatentes de um dos lados tenta matar os combatentes do outro.

Mas essa é uma visão simplista e inexata da guerra. O conflito entre dois exércitos é apenas o ápice da guerra, a sua parte mais visível, dramática e sangrenta, mas isso não significa que a guerra se resuma a isso ou que todos os seus atores atuem apenas no campo de batalha. Na verdade, a guerra requer um vasto conjunto de operações de bastidores que a precedem ou a acompanham. É aí principalmente que encontramos as mulheres. Se foram raras as mulheres que participaram da guerra enquanto combatentes, nada raras foram as mulheres que trabalharam em prol da guerra, fornecendo-lhe apoio material, moral ou até ideológico. Elas atuaram como vivandeiras, espiãs, cozinheiras, secretárias, carregadoras de materiais bélicos, decifradoras de códigos, prostitutas, propagandistas, incentivadoras… O historiador militar André Corvisier menciona que as mães espartanas ficavam “encarregadas de despertar nos rapazes o espírito de sacrifício”[1]. A historiadora Wendy Lower, especialista em Holocausto, mostra como as mulheres cumpriram várias funções na matança nazista. “Durante a guerra”, ela diz, “as enfermeiras deram a milhares de bebês deformados e adolescentes inválidos overdoses de barbitúricos, injeções letais de morfina, e lhes negaram comida e água”[2].

As feministas reconhecem amplamente esse fato. Entre em qualquer página feminista e você encontrará menções a Boudiceia, Zenóbia, Joana D’Arc, Njinga Mbande e outras guerreiras que participaram dos combates, bem como a mulheres que participaram dos bastidores da guerra. Num artigo de Maria Teresa Garritano, doutora-mestre em História pela UFMS, Matriarcas, patriotas, andarilhas e vivandeiras: a presença feminina na Guerra do Paraguai[3], somos informados de que as mulheres sempre foram uma “presença extraoficial” na guerra, que elas sempre formaram um “exército invisível”, que elas “trabalhavam, alimentando, socorrendo, plantando, lutando, ou mesmo comercializando gêneros de primeira necessidade. Viviam ocupadas demais em manter todo aquele aparato de guerra”. Para provar a sua tese, ela cita trechos de diários de soldados brasileiros, como este do capitão Pedro Werlang: “[…] como vaqueanas ou guias serviam-lhe mulheres que tinham remanescido naquela zona…Todas as mulheres que acompanhavam nosso exército tinham que carregar munição de artilharia; nossa cavalaria ia a pé, pois havíamos nos livrados dos cavalos”. Por essas e por outras, a feminista Elizabeth Minnich chegou a dizer textualmente que “sem mulheres […] nenhuma guerra poderia ter sido travada”[4].

Mas quem conhece feminista sabe como elas agem rotineiramente: de tudo elas pegam o que é bom e deixam para os homens o que é ruim. A participação feminina na guerra é reconhecida apenas para mostrar como as mulheres desempenharam papéis históricos importantes, ou para gabar a coragem e a valentia femininas, ou para defender a tese de que as mulheres podem fazer tudo o que os homens fazem, tão bem ou até melhor do que eles. Quanto à responsabilidade moral pela guerra e os horrores que ela implica, essa, claro, é dos homens. A culpa da carnificina humana, do sangue derramado, dos ossos fraturados, dos membros mutilados é deles. Graças a esse ardil intelectual, as feministas podem argumentar ao mesmo tempo que as mulheres sempre tiveram um papel importante na guerra e que, se as mulheres governassem o mundo, não haveria mais guerras. Não é uma gracinha?

As feministas poderiam objetar que as mulheres podem até ter participado da guerra, mas não a provocaram. Mas esse argumento seria ridículo. Não é porque outros provocaram uma ação que devemos participar dela. Quando alguém provoca uma ação que nos desagrada, podemos resistir a ela de inúmeras formas, e as mulheres sempre tiveram o melhor de todos os dissuasores da guerra, a sua sexualidade. Na Lisístrata, célebre comédia de Aristófanes, um grupo de mulheres consegue pôr fim à Guerra do Peloponeso fazendo greve de sexo. Se as mulheres são tão avessas à guerra, como dizem os ginocêntricos, por que nunca fizeram isso? Que homem iria querer ir para o campo de batalha se tivesse a certeza de que, ao voltar dela, jamais poderia ter o abraço e o corpo de uma mulher?

Além disso, a objeção demonstra ignorância histórica, pois, como refere o historiador militar John Keegan, as mulheres “podem ser as instigadoras de violência em sua forma extrema: lady Macbeth é um tipo reconhecido universalmente”[5]. A infame Noite de São Bartolomeu, em que os católicos franceses saíram às ruas para chacinar os huguenotes (protestantes), deixando um saldo de milhares de mortos, foi instigada por Catarina de Médicis, mãe de Carlos IX, o então rei da França[6]. Talvez seja o caso de perguntar se as mulheres são realmente inocentes, ou se apenas parecem inocentes porque podem usar os homens para cometer violência no lugar delas.

As poucas mulheres que alcançaram o poder e tiveram a chance de governar uma nação tampouco conseguiram entregar para a humanidade a paz que as feministas hoje nos prometem. No século III a.C, Zenóbia, rainha de Palmira, liderou várias campanhas expansionistas com suas tropas, tendo invadido e conquistado Bostra, depois a Antióquia e, por fim, o Egito[7]. Maria Tudor, sugestivamente apelidada de A Sanguinária por ter passado todo seu reinado perseguindo protestantes, o que incluía queimar alguns deles na fogueira e forçar outros fugir para o exílio, aliou-se ao marido Filipe II, da Espanha, numa guerra contra Henrique II, da França[8]. Catarina, a Grande, que governou a Rússia de 1762 até sua morte, em 1796, entrou em duas guerras contra os turcos-otomanos para conseguir acesso ao mar Negro, numa guerra contra a Suécia e noutra contra a Polônia[9]. Indira Gandhi, que foi primeira-ministra da Índia por duas vezes, entre 1966 e 1977 e 1980 e 1984, foi diretamente responsável pelo massacre contra os sikhs, uma minoria religiosa do país, que produziu 3.000 mortos[10].

Depois de todos esses exemplos, podemos considerar como um mito feminista a ideia de que, se as mulheres governassem o mundo, não haveria mais guerras.

[1] CORVISIER, Andre. A guerra: ensaios históricos. Tradução de José Livio Dantas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1999, p. 44.

[2] LOWER, Wendy. As mulheres do nazismo. Tradução de Ângela Lobo. Versão on-line. Rocco Digital, p. 104.

[3] Disponível em: https://bit.ly/2W5BrDX.

[4] Citado por Hoff Sommers em Quem roubou o feminismo, p. 64.

[5] KEEGAN, John. Uma história da guerra. Tradução de Pedro Maia Soares. Companhia de Bolsa. Edição virtual, p. 78.

[6] Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/1572-a-noite-de-s%C3%A3o-bartolomeu/a-320214. E: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catarina_de_M%C3%A9dici.

[7] MATYSZAK, Philip. Os inimigos de Roma. De Aníbal a Átila, o huno. Tradução de Sonia Augusto. Amaryilis, edição virtual, p. 222.

[8] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_I_de_Inglaterra#Internacional.

[9] Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/historia/catarina.htm. E: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catarina_II_da_R%C3%BAssia#Guerras_Russo-Turcas.

[10] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Indira_Gandhi. E https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2410200410.htm.

Fonte da imagem: https://bit.ly/2MkKSez.

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