Feminismo

TRANSGRESSÃO, ESTUPRO E PEDOFILIA*

As décadas de 60 e 70 foram loucas. Os jovens se rebelaram contra a autoridade, saíram nas ruas em Paris para protestar, foram para Woodstock tomar LSD, fazer sexo livre e ouvir Joe Cocker transformar uma música banal dos Beatles num clássico do rock (With a little help from my friends). Toda regra era vista como um sinal de intolerância repressiva, uma tentativa autoritária de impedir as pessoas de serem felizes. As normas existentes era preciso transgredir e, ao mesmo tempo, evitar que novas fossem criadas. É proibido proibir, dizia o slogan.

O culto da transgressão levou, claro, a uma escalada do crime e, pior, à defesa aberta do sexo entre adultos e crianças e das vantagens que ele proporcionaria a estas últimas. Em A tirania do prazer, Jean-Claude Guillebaud cita o filósofo francês René Schérer, de 78: “Questionamo-nos sobre a possibilidade de um amor partilhado entre um homem e uma criança. É que gostaríamos de impor a esse insólito par a prisão de uma erótica de adultos, entre pessoas separadas por divisórias. Visto como mentira, enigma, possibilidade ou crime, a amor pedófilo torna-se, pelo contrário, todo luz quando o colocamos no campo da erótica pueril.”

Em 73, o escritor Tony Duvert publicou seu quinto livro, Paysage de Fantasie, no qual abordava as relações sexuais entre um adulto e uma criança, obra que lhe valeu o Prêmio Médicis. Daí em diante tornou-se um militante literário da causa. No panfleto Le bon sexe ilustrée, denunciou a “velha moral repressora” que via com maus olhos o sexo entre adultos e crianças. Em 78, publicou o romance Quand mourut Jonathan (Quando Jonathan morreu), no qual contava a história de amor entre “um pintor de idade madura e um garoto de oito anos”.

Talvez as duas feministas mais influentes dos últimos tempos, Simone de Beauvoir e Shulamith Firestone também não viram problema em defender as relações sexuais entre adultos e crianças, o que serve de alerta para aqueles castrados que ouvem qualquer besteira dita por uma feminista e saem por aí repetindo, como se a palavra dela fosse a palavra de Deus.

O estupro, claro, pegou carona na onda de permissividade sexual. Na autobiografia de Eldridge Cleaver, Alma no exílio, de 1968, o Pantera Negra escreveu: “O estupro era um ato insurrecional. Encantava-me estar desafiando e pisoteando a lei do homem branco, seu sistema de valores, e desonrando suas mulheres — e esta última noção, acredito, era para mim a mais satisfatória, pois eu me ressentia muito do fato histórico de o homem branco ter usado a mulher negra. Eu sentia que estava praticando uma vingança.” Na crítica ao seu livro, o New York Times o descreveu como “Brilhante e revelador”, e o The Nation como “um livro notável […] muito bem escrito”. Quanto ao próprio autor, o Athlantic Monthly se referiu a ele como “um homem inteligente, turbulento, ardoroso e eloquente”).

Tudo isso talvez ajude a entender a emergência de uma expressão que se tornou moda nos dias hoje: cultura de estupro. Ela apareceu pela primeira vez no livro de Susan Brownmiller Against Our Will (Contra a nossa vontade), publicado em… 1975. No contexto histórico em que foi criada, parecia fazer sentido. Se continua tendo validade hoje, discuto em outro artigo.

* Por razões de economia, optei por usar o termo pedofilia no título, mesmo sabendo que a pedofilia não implica necessariamente a agressão sexual.

Crédito da foto: https://denniscooperblog.com/spotlight-on-tony-duvert-atlantic-island-1979/.

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