Feminismo

Três mitos sobre o voto

I – Introdução

Existem três mitos feministas sobre o direito de voto que são repetidos ad nauseam: o primeiro é que os homens só precisaram ser homens para adquirir esse direito, nunca tendo oferecido nada em troca por ele. O segundo é que as mulheres foram o último grupo social a receber o direito de voto, depois até mesmo dos negros, dos imigrantes, dos nativos e de outros grupos marginalizados. O terceiro é que as mulheres sempre reivindicaram o direito de voto.

Não sou um grande conhecedor da história do voto, mas, a julgar pelas informações que obtive em alguns livros que tratam desse assunto, principalmente O direito de voto – a controversa história da democracia nos Estados Unidos, de Alexander Keyssar, nada disso parece ser verdade. O livro de Keyssar se ocupa mais da história americana, mas há indícios de que o que aconteceu nos Estados Unidos aconteceu também em outros países.

Já passou da hora de desmentir cada uma desses mitos feministas.

II – O primeiro mito

Na época em que os Estados Unidos ainda eram colônia da Inglaterra, o direito de voto era reservado somente aos proprietários rurais que possuíssem uma certa extensão de terras determinada pela lei, o que representava apenas uma minúscula parte da população americana. Todo o resto da população, incluindo os homens brancos pobres, os negros, os nativos, os imigrantes, os indigentes, as mulheres etc., estava proibido de votar.

Com o passar do tempo, o critério fundiário foi substituído pelo critério econômico, passando a ter direito de comparecer às urnas todas as pessoas que pagassem uma certa quantidade de impostos fixados em lei. Essa mudança ampliou o número de pessoas que tinham acesso às urnas, já que o número de pagadores de impostos era maior que o número de proprietários de terra, mas ainda assim a maior parte da população americana continuou destituída do direito de escolher os representantes que iriam governar o país.

Entre 1790 e 1850, o direito de voto foi ampliado ainda mais, sendo concedido a largas parcelas da população masculina. Segundo Keyssar, isso não se deu por um único motivo. Mudanças de ordem econômica e social, a rivalidade partidária entre republicanos e democratas, o fluxo imigratório e outros fatores contribuíram para esse fenômeno, mas, entre todos, há um que se destaca: a guerra. Durante esse período, os Estados Unidos se envolveram em duas guerras, uma contra o Reino Unido, em 1812, e outra contra o México, em 1846, o que exigiu a mobilização de um grande contingente de soldados. Quando voltaram do campo de batalha, esses soldados, inconformados com o fato de não poderem escolher seus representantes, os quais poderiam declarar guerra e enviá-los para a morte, começaram a reivindicar o direito de voto. Por que eles não podiam votar se tinham que morrer pelo país?

Em 1829, por exemplo, um grupo de homens entregaram à Convenção Constitucional da Virginia um documento intitulado “Memorial dos Não Proprietários da Cidade de Richmond”, no qual se lia a seguinte queixa: “Na hora do perigo eles não traçaram distinções injustas entre os filhos da Virgínia. As listas de recrutamento não passaram por nenhum escrutínio (…) Se os cidadãos sem-terra foram expulsos de forma ignominiosa das urnas em tempos de paz, pelo menos eles foram generosamente convocados, na guerra, para o campo de batalha”. Décadas mais tarde, o candidato da Carolina do Norte, David S. Reid, declarou que “gostaria de ver os homens corajosos que arriscavam sua vida na guerra contra o México recebidos nas urnas em termos de igualdade”. Na Nova Inglaterra, um ativista chamado Seth Luther alegou que havia “12 mil vassalos” em Rhode Island que “se submetem a ser tributados sem seu próprio consentimento, que são obrigados a fazer o serviço militar para defender o país da invasão estrangeira e da agitação social doméstica; a proteger propriedades que não são as suas próprias; na verdade, que são obrigados, pela vontade de uma minoria, a arcar com todas as obrigações de um governo nominalmente livre e, contudo, não têm voz na escolha dos governantes e na administração desse governo”.

Ora, se existe uma coisa que você não pode fazer nessa vida é cuspir em quem te protege. Se você faz isso, corre o risco de perder a proteção que sempre teve. Mesmo que os deputados e senadores americanos não estivessem dispostos a dividir o poder político com a ralé americana, tiveram que ceder. Portanto, os homens americanos não ganharam o direito de voto por serem homens, por terem nascido no sexo privilegiado, por terem cromossomos XY. Conquistaram esse direito porque estavam dispostos a morrer pelo seu país. E esse direito, atente-se, não foi concedido a eles como uma forma de reconhecimento pelos serviços prestados à nação. O que levou a essa concessão foi uma espécie de precaução quanto ao futuro: o medo dos políticos americanos é que os homens, se não recebessem o direito de voto pelo qual ansiavam, poderiam se recusar a ir para o campo de batalha em caso de nova guerra.

Ao que parece, essa ligação entre direitos políticos e obrigações militares não foi uma exclusividade só dos Estados Unidos. No livro A guerra na Grécia Antiga, o historiador Marcos Alvito Pereira de Souza relata que, em Atenas, os homens só adquiriam os direitos cívicos depois de passar pela efebia, o equivalente do serviço militar da época, que durava dois anos. Em Esparta, os tresantes, ou seja, os jovens que tremiam durante o treinamento militar ou os homens adultos que mostravam sinais de covardia no campo de batalha, perdiam parte dos seus direitos de cidadania e sofriam toda sorte de vexações. Eles “eram praticamente excluídos do corpo de cidadãos: não participavam das refeições comuns nem das competições esportivas; eram relegados a funções menores durante as cerimônias religiosas; deviam dar passagem aos cidadãos na rua e levantar-se quando sentados, mesmo para os mais jovens que eles (o que era grave numa sociedade hierarquizada em grupos de idade; as mulheres de sua família dificilmente conseguiam casar-se e eles próprios não podiam fazê-lo, tendo que pagar a multa correspondente pelo celibato”. Embora não haja nesse rol de punições menção ao direito de voto, parece óbvio que os tresantes eram também excluídos da vida política.

Outro indício desse vínculo cultural entre direitos políticos e obrigações militares se encontra na participação política dos hoplitas nos tempos de guerra. A guerra era vista pelos gregos antigos como um privilégio aristocrático, ou seja, como uma atividade honrosa a ser praticada somente pelos nobres. Contudo, quando o exército ateniense se tornou dependente do serviço dos hoplitas, grupo formado majoritariamente por homens que vinham dos extratos sociais mais baixos, foi preciso, para aliciá-los, conceder a eles o direito de participar da vida política da cidade. Aliás, segundo Alvito, esse foi um dos grandes impulsos para o surgimento da democracia.

Não conheço tanto a história do voto no Brasil, mas sei que hoje existe esse vínculo. No ano em que o rapaz completa 18 anos, é exigido dele que procure uma junta militar para fazer o alistamento obrigatório. Se descumprir essa obrigação, ele é considerado “refratário” e, como punição, deixa de receber o Certificado de Reservista, é proibido de tirar passaporte, de participar de concursos públicos, de se matricular em universidades públicas e, adivinha só, de tirar o título de eleitor… [1] Sem o título de eleitor, claro, ele fica impedido de votar. Portanto, quando você que é homem estiver diante de uma urna, pronto para escolher um candidato, não esqueça que, para ter esse direito, você se comprometeu antes a ir para uma guerra caso haja uma. Na minha carteira de reservista, pode-se ler: “Em caso de convocação, deve apresentar-se imediatamente”.

O vínculo entre direitos políticos e obrigações militares parece ter sido tão forte que foi usado até mesmo pelos defensores do sufrágio feminino em benefício das mulheres. Após a Guerra Civil americana, um político americano declarou: “É verdade, as mulheres não foram para o campo de batalha, com mosquetes e baionetas em suas mãos, e não lutaram para acabar com a rebelião; mas elas prestaram serviços em casa durante a casa tão valiosos como a luta, e de extremo auxílio para o sucesso do exército da União (…) Elas tiveram uma participação integral na salvação da República”. O próprio presidente Woodrow Wilson, num discurso ao Senado em 1918, declarou que o sufrágio feminino “era essencial para a denúncia bem-sucedida da grande guerra da humanidade em que estão envolvidas (…) Ficamos parceiros das mulheres nessa guerra. Havemos de admiti-las apenas para uma parcela de sacrifício e sofrimento e taxas, e não uma parceria de privilégio e de direito? Essa guerra não poderia ter sido travada (…) se não fosse pelos serviços das mulheres”. Aliás, parece ter sido em consideração à participação nos esforços de guerra que as mulheres adquiriram o direito de voto em vários países europeus, já que isso aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial.

Um fato importante, e que deve ser mencionado, é que o direito de voto, uma vez conquistado, nunca foi protegido das intempéries do devir. Foi sempre, por assim dizer, um direito flutuante, ora concedido, ora revogado, de acordo com as necessidades do tempo e as circunstâncias históricas. Nos Estados Unidos, entre os anos de 1850 e 1920, alguns grupos de homens que haviam conquistado no período anterior o direito de votar tiveram esse direito cassado. A explicação para isso? Vários fatores, claro, mas um deles a quase ausência de guerra…. A única guerra desse período foi contra a Espanha, em 1898, que, segundo Keyssar, “foi relativamente breve, não exigiu um recrutamento em massa e foi travada em grande parte por ávidos voluntários”. Esses homens reconquistariam o direito de voto entre 1920 e 1960, época da primeira e segunda guerra mundiais, das quais os Estados Unidos participaram…

Como se observa, a expansão e contração do direito de voto nos Estados Unidos sempre estiveram bastante ligadas à guerra: em épocas de guerra, o direito de voto se expandia; em época de tranquilidade, o direito de voto se contraía.

III – O segundo mito

O segundo mito feminista é que as mulheres teriam sido as últimas a serem convidadas para a festa da democracia, só tendo conquistado o direito de voto depois que todos os homens já estavam votando. Na verdade, como mostra  Keyssar, as mulheres americanas conquistaram o direito de voto antes de vários grupos de homens e, diferentemente deles, não foram obrigadas a prestar serviço militar. Para explicar como isso aconteceu, preciso fazer uma breve digressão sobre os problemas eleitorais gerados pelo federalismo americano.

Como se sabe, nos Estados Unidos, os estados gozam de relativa autonomia administrativa e política, podendo criar suas próprias leis sobre um determinado número de assuntos sem que haja interferência federal. Isso faz com que algumas leis sejam diferentes de estado para estado. O casamento gay, por exemplo, é legalizado em alguns estados, enquanto em outros é proibido. Durante a maior parte da história americana, os estados também tiveram o direito de regular o direito de voto, concedendo-o ou negando-o de acordo com suas conveniências ou interesses, o que criava vários tipos de problema. A 14ª e 15ª emendas, criadas para garantir o direito de voto dos homens negros (uma recompensa por sua participação na Guerra Civil de 1860), eram flagrantemente violadas, principalmente nos estados do Sul. Os legislativos estaduais criavam todo tipo de leis discriminatórias para impedir que eles fossem às urnas, como atrelar o seu direito de voto a uma série de requisitos que eles não podiam cumprir, como passar nos testes de alfabetização a que eram submetidos. A solução para isso era óbvia: criar uma lei federal que nacionalizasse o direito de voto. Mas isso sempre foi complicado de fazer nos Estados Unidos, pois os estados sempre estiveram pouco dispostos a aceitar a intromissão federal em seus assuntos.

No caso das mulheres, havia um problema parecido. Em alguns estados elas podiam votar, em outros não. Foi somente com a 19ª emenda, de 1920, que elas passaram a ter o direito de voto reconhecido pelo governo federal e puderam votar em todos os estados.

Tarde, dirão as feministas. Certamente tarde, reconheço, mas não tão tarde quanto 1960, ano em que o governo federal finalmente resolveu nacionalizar o direito de voto dos negros, o que se deu através da criação da Lei de Direitos do Voto, que enfim garantiu a essa parcela da população americana o direito de participar da vida política do país. Ou seja, foi somente 40 anos depois da conquista do sufrágio feminino (e 100 anos depois da Guerra Civil) que os negros enfim puderam participar da vida política do país.

Não só os negros votaram depois das mulheres. A lei federal que beneficiou os nativos americanos (ou seja, os índios) também foi posterior a 1920. Após a Primeira Guerra Mundial, da qual haviam participado aos milhares, os nativos ganharam o direito de votar em alguns estados americanos, mas foi somente após a Segunda Guerra Mundial, mais especificamente na década de 1950, que todas as barreiras ao seu acesso ao voto foram rompidas.

Outro grupo de homens que também não tinha direito ao voto depois que as mulheres já o haviam conquistado eram os rapazes de 18, 19 e 20 anos. Desde a fundação dos Estados Unidos, a idade mínima para o voto era de 21 anos. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, devido à necessidade de recrutar soldados para os matadouros da Europa, foi preciso abaixar a idade do alistamento militar de 21 para 18 anos, o que criou uma aberração: os rapazes de 18, 19 e 20 anos tinham que lutar, mas não podiam votar. Essa incoerência da democracia americana foi maravilhosamente captada pela música Eve Of Destruction, de Barry McGuire, cujos versos iniciais dizem:

The eastern world it is explodin’

Violence flarin’, bullets loadin’

You’re old enough to kill but not for votin’

(O mundo oriental está explodindo

Violência eclodindo, balas carregando

Você é velho o suficiente para matar, mas não para votar)

Os rapazes americanos dessa faixa etária tiveram que esperar até 1961 para finalmente conseguir seus direitos políticos. E não pense você que foi uma recompensa pela atuação dos garotos americanos na Segunda Guerra. O que aconteceu foi mais um suborno: no final da década de 60, os americanos se enfronharam na Guerra do Vietnã e precisaram recrutar jovens para os campos de batalha. Para incentivá-los, concedeu-se-lhes o direito de voto…

Os eleitores itinerantes e os indigentes também conquistaram o direito de voto na década de 70. Antes disso, um homem podia ser impedido de votar por ter se mudado para outra cidade um mês antes da eleição, ou por receber auxílio financeiro do Estado.

Para completar, alguns grupos até hoje não receberam seus direitos políticos, como os estrangeiros que ainda não adquiriram a cidadania, mas que são obrigados a pagar impostos e a fazer o serviço militar, e os presidiários, a maioria dos quais é formada por homens.

Como se vê, as mulheres estiveram muito longe de ser o último grupo a conquistar o direito de voto nos Estados Unidos. Além disso, deve-se observar que, embora elas tenham conquistado tal direito depois dos homens, o Estado não cobrou delas nenhum tipo de contraprestação. Ao contrário dos homens, elas podem votar sem cumprir obrigações militares, o que, combinado com o fato de que hoje a maior parte do eleitorado é feminino, cria uma situação injusta para os homens: eles podem ser enviados para uma guerra da qual não querem participar por decisão das mulheres…

IV – O terceiro mito

O terceiro mito feminista consiste na ideia de que as mulheres sempre reivindicaram o direito de voto (sendo somente há poucas décadas que os homens malvadões finalmente decidiram lhes conceder esse direito).

Pelo menos até onde pude apurar, isso não é verdade. A reivindicação feminista (feminista porque não chegava a ser feminina, aliás esse seria um quarto mito) pelo direito de voto não é uma coisa que sempre existiu. Na Grécia antiga, por exemplo, onde só podiam votar os cidadãos e os cidadãos eram só os homens (e um certo tipo de homem, como vimos), jamais houve um movimento de sufragistas. Na literatura grega, onde abundam matronas ranzinzas e mal-humoradas, nenhuma mulher reclama do fato de que só os homens podiam votar. Nas obras filosóficas, nem os pré-socráticos nem os pós-socráticos mencionam uma exigência feminina pelo direito de voto.

Mesmo na Idade Média, essa reivindicação parece não ter existido. No seu A cidade das damas, Cristina de Pizan, a protofeminista que viveu no século XIV, reclama para as mulheres o direito à educação, mas não o direito de participar da vida política.

Essa reivindicação só vai aparecer na modernidade, com Olympe de Gouges, já em plena Revolução Francesa. E o quanto essa ideia era vista como algo absurdo e aberrante (mesmo pela maioria das mulheres) pode ser inferido pelos salamaleques que Mary Wollstonecraft, que também viveu na mesma época, se viu obrigada a fazer ao reivindicar esse direito. Veja com que cuidado ela se expressa no seu Reivindicação dos direitos das mulheres ao abordar esse assunto: “Posso provocar risadas ao lançar uma insinuação que pretendo desenvolver no futuro, mas eu realmente acredito que as mulheres devem ter representantes, em vez de serem governadas arbitrariamente, sem qualquer participação direita nas deliberações do governo”.

A pergunta óbvia a fazer é: “Por que as mulheres demoraram tanto tempo para fazer tal exigência?”

Tenho uma suspeita: durante a maior parte da história, política e guerra eram uma coisa só, o que se pode inferir do fato de que antigamente os chefes políticos eram também chefes militares. Alexandre, o Grande, Júlio César, Marco Antônio, Aníbal, Xerxes etc., todos eles governavam estados e todos eles lideravam exércitos. No mundo antigo, não havia essa moleza que existe hoje em que um presidente de um país declara guerra a outro país, envia seus soldados para o campo de batalha e fica atrás de uma mesa, confortável e protegido, se refrescando ao ar-condicionado de uma sala luxuosa num palácio.

Ou seja, a participação política estava reservada àqueles que estavam dispostos a ir para o campo de batalha. E, a julgar pela profusão de guerras que havia naquela época (Pereira de Souza informa que, entre os anos 479 a 338 antes de Cristo, Atenas “nunca desfrutou de pelo menos uma década de paz ininterrupta: a média era de exatamente dois anos de guerra em cada três”), dá para presumir que boa parte da vida política girava em torno de questões de segurança. Imagino que a grande pergunta que os políticos da época tentavam responder era: “Como vamos fazer para nos proteger das invasões estrangeiras?”

Na Idade Média, o vínculo entre política e guerra persistiu. Os monarcas que governavam seus reinos também iam para o campo de batalha à frente de seus exércitos. Na Wikipédia, é possível encontrar o nome de muitos que perderam a vida em um deles: ficamos sabendo que Abel da Dinamarca pereceu numa expedição à Frísia em 1252; Afonso V de Leão morreu durante um cerco a Viseu em 1028; seu filho, Bermudo III de Leão, faleceu em 1037 na batalha de Tamaron; Henrique II, rei da Polônia, adotou a posição horizontal perpétua, como diz jocosamente Dickens, na batalha de Wahlstatt, em 1241…

Além disso, a violência cotidiana nesse período era extrema. A insegurança e o medo de invasões eram tão grandes que os medievais tinham que viver encerrados em fortalezas, protegidos por altos muros, fossos e outros mecanismos de defesa. Viajar pelas estradas era uma aventura perigosa, dada a quantidade de salteadores que espreitavam pelo caminho. Segundo a historiadora Joyce Lee Malcolm, na Inglaterra medieval, “a taxa de homicídios era extraordinariamente alta, aproximadamente 18 a 23 por 100.000 no século treze e na primeira metade do quatorze”, número que a autora reconhece estar subestimado, já que, “antes de 1400, o termo assassinato parece ter sido usado somente para mortes secretas ou acobertadas nas quais o assassino era desconhecido”. Considerando que, segundo dados do Atlas da Violência, o Brasil registrou 30,3 mortos por 100.000 habitantes em 2016, pode-se apostar sem muito medo de errar que a Inglaterra medieval era uma espécie de Brasil, o que dá uma boa medida do nível de insegurança em que viviam as pessoas naquela época. Assim, é é plausível que questões de segurança dominassem a vida política naquela época.

Uma vez que não ia para a guerra, não é de estranhar que a mulher estivesse excluída da participação política. E uma vez que não queria ir para a guerra, não é de estranhar que ela não reivindicasse esse direito, que ela acreditasse ser a política um assunto para homens. Ela só deixou de acreditar nisso quando se tornou possível participar da vida política sem ter que arriscar a própria pele.

V – Questões espinhosas sobre o sufrágio

Esse livro do Keyssar me fez pensar em muitas coisas que antes não me preocupavam. Uma delas é a seguinte: numa democracia, todas as pessoas devem ter o direito de votar, ou será que nós devemos negar o direito de voto a algum grupo? E, neste segundo caso, que grupos deveriam ser excluídos da eleição?

A primeira pergunta já é muito difícil de responder. Os loucos deveriam ter o direito de voto? E os presos que cometeram crimes graves, como os estupradores, os homicidas e os traficantes? E os analfabetos? E as crianças e os adolescentes com menos de 16 anos? E as pessoas que não têm documentação? E os políticos que foram condenados pela justiça? E as pessoas que estarão mortas no dia da eleição, mas antes dela já sabem em quem votar?

Imagino que a imensa maioria das pessoas, apesar de ser simpática ao conceito de sufrágio universal, gostaria de impor algum tipo de limitação ao tamanho do eleitorado. A ideia de que um esquizofrênico, um estuprador de crianças, um serial killer ou um garoto de cinco anos possam votar pareceria aberrante a elas.

Mas qualquer tipo de limitação por si só encerra uma série de problemas. O primeiro deles diz respeito à natureza do voto. O voto deve ser visto como um privilégio concedido pelo Estado a um grupo de pessoas ou deve ser visto como um direito? Imagino que a ideia do voto como privilégio repugnaria muita gente, principalmente depois que elas soubessem que, nos Estados Unidos, esse argumento foi usado muitas vezes pelos conservadores para impedir certos grupos de votar. Mas, ao negarmos a determinados grupos esse direito, não estamos nos comprometendo moralmente com essa ideia?

Outra complicação: se numa sociedade todas as pessoas estão sujeitas às decisões tomadas pelos políticos, decisões das quais muitas vezes dependem seu bem-estar, sua segurança e sua própria vida, como podemos negar a determinados grupos o direito de escolher seus representantes? Imagine que os políticos do Rio de Janeiro resolvam mandar fechar todos os hospitais psiquiátricos da cidade. Muitos dos internos desses hospitais não têm família que os acolha, não têm casa onde morar, não têm emprego que lhes pague salário, não têm, portanto, condições de viver dignamente fora dos muros da instituição. É justo obrigá-los a acatar decisões que foram tomadas por políticos que eles sequer tiveram a chance de escolher?

Nos Estados Unidos, vários argumentos foram usados para defender a exclusão de certos grupos do processo eleitoral. Por muito tempo, os sem-propriedade, os indigentes, os infelizes que viviam da assistência pública e até as mulheres foram proibidos de votar porque eram considerados economicamente dependentes. No Brasil, já aconteceu coisa parecida. Quando a Dilma ganhou a última eleição, muita gente propôs tirar os direitos políticos dos beneficiários do Bolsa-Família. Tanto lá como cá, o argumento apresentava a mesma lógica: quem depende dos outros não têm vontade própria e, portanto, alienaria seu voto em benefício do seu protetor.

O argumento é problemático, por muitas razões. Quem disse que o dependente vai votar necessariamente no candidato do seu benfeitor? Mesmo que isso acontecesse, por que só a restrição ao direito de voto não se estende para outras formas de dependência econômica? Por exemplo, a do empresário que depende de financiamento governamental para investir na sua empresa? Ou a do artista que depende de patrocínio estatal para poder publicar seus livros, ou fazer seus shows, ou exibir seus quadros? Além disso, por que o foco exclusivo na dependência econômica? A dependência sentimental ou intelectual poderia produzir os mesmos efeitos de alienação do voto. Um homem apaixonado por uma mulher poderia votar no candidato preferido dela só para agradá-la. E uma mulher sem nenhum conhecimento do cenário político do seu país poderia votar no candidato preferido do intelectual que exerce influência sobre ela, o tal do formador de opinião.

Mas se o argumento da dependência não se sustenta, por que diabos nós impedimos as crianças de votar? Alguém poderia argumentar que as crianças não têm discernimento bastante para fazer escolhas das quais dependem o futuro da nação. Mas, na população geral, quem é que tem tal discernimento? Os que elegeram o Tiririca eram dotados dessa coisa maravilhosa? E os que elegeram o… o… o…? Deixo para você completar… Imagino que qualquer criança mais ou menos articulada poderia usar o seguinte argumento a favor do sufrágio infantil: “Até hoje a política ficou restrita aos adultos, e nem por isso eles conseguiram fazer do mundo um lugar melhor. Bem pelo contrário, todas as guerras, todas as injustiças, todas as formas de discriminação, todas as calamidades sociais foram produzidas por eles”.

Considere agora o caso dos criminosos. Por que mesmo os criminosos não poderiam votar? Muitos poderiam argumentar que eles ofenderam as leis, os costumes, a nossa sensibilidade. Tudo isso é verdade, mas, se o critério moral fosse aplicado a toda a população, quantas pessoas conseguiriam preservar o seu direito ao voto? Há uma passagem célebre em Recordação da casa dos mortos, de Dostoievski, em que ele afirma que há pessoas que nunca mataram ninguém e que são 500 vezes do que assassinos seriais. Exagero ou não, é fato que, do lado de fora da cadeia, há pessoas muito mais corruptas e degeneradas do que quem está lá dentro. Além disso, como a justiça não é cega para questões de classe, há criminosos ricos que cometem crimes pavorosos e nunca vão para a cadeia, enquanto criminosos pobres são encarcerados pelos motivos mais insignificantes. Para ficar num exemplo famoso: os filhinhos de papai que raptaram, drogaram, estupraram e esquartejaram a menina Araceli Cabrera Crespo, no Espírito Santo, na década 70, nunca foram punidos, enquanto as cadeias estão lotadas de pobres que roubaram doces, margarinas, carne etc. Por que então os estupradores que estão fora da cadeia podem votar, enquanto os que roubaram para comer não? E como fica a questão das pessoas que foram condenadas injustamente?

Enfim, dá para ficar brincando disso até o Big Crunch.

1 – Serviço militar obrigatório: o ponto de vista dos recrutas. Celso Castro e Fernanda Chinelli. O PDF desse artigo está disponível aqui: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/cfa21/814.pdf.

Crédito da imagem:  https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2016/noticias/2016/07/25/144-milhoes-de-eleitores-vao-as-urnas-nas-eleicoes-de-2016.htm.

Leave a Reply

avatar
  Subscribe  
Notify of