Filosofia

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades

“Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”, escreveu com muita sabedoria o Barão de Itararé, aquele ocioso que não tinha nada pra fazer além de chasquear.

Você porventura já reparou como as coisas neste mundo parecem ter sido concebidas pelo Diabo com o propósito deliberado de nos induzir ao suicídio? Não estou falando da fome, das doenças, das guerras, dos cataclismos naturais, das injustiças sociais, da inveja dos maus, da apatia dos bons e de outras mazelas que afligem a humanidade há tantos anos. Estou falando de um assunto ainda inexplorado, isto é, das leis cósmicas que regem a nossa vida.

Observe como as leis que regulam as coisas neste mundo são sempre prejudiciais ao homem. Não me refiro às leis da física que regem o funcionamento do universo, mas àquelas leis a que está sujeita a vida humana. Você já notou como tudo parece ter sido feito para nos atormentar? Como tudo parece ter sido disposto para aumentar a nossa infelicidade? Diga-me uma coisa: por que é mais fácil destruir do que construir? A reputação construída ao longo de toda uma vida é destruída com uma única frase destemperada, uma única ação leviana, um único gesto sórdido. As pirâmides construídas durante décadas intermináveis podem ser arruinadas por um único terremoto. E tudo o que fizemos até hoje neste mundo, todas as nossas maravilhosas realizações artísticas, intelectuais e tecnológicas, não resistiria ao impacto de um grande meteoro que caísse sobre a Terra. Não lhe parece que uma lei abominável como essa jamais poderia ter sido decretada por um Deus benévolo e amoroso? Não deveria ser mais fácil construir do que destruir?

Você já notou como é nocivo o comércio humano das virtudes e dos defeitos? Já viu como nós assimilamos mais facilmente os defeitos dos outros do que as suas virtudes? Lembra-se daquele episódio ocorrido em Brasília quando alguns adolescentes resolveram, por pura brincadeira, atear fogo num índio que dormia num ponto de ônibus? Uma semana depois, houve quatro casos semelhantes. Levando em conta esta lei, você acha que as colisões de aviões em edifícios terminaram com o 11 de setembro? É claro que não! Vem mais por aí! Eu aposto que há neste momento uma malta de terroristas planejando outro ataque, mas não um ataque diferente daquele que vimos há alguns anos, mas o mesmo ataque. A única diferença é que dessa vez ele será dirigido a novos alvos, já que as Torres Gêmeas não existem mais. Isso, é claro, se não esperarem reconstruir os dois portentosos prédios para atacá-los novamente. Você nunca se perguntou por que somos assim, tão hábeis para imitar os malfeitos dos perversos e tão ineptos para reproduzir as benfeitorias dos virtuosos? À luz desse fato, a ideia de que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus não lhe parece grotesca, o cúmulo mesmo do ridículo?

Você pode me responder por que uma única crítica incomoda mais o artista do que o satisfaz uma centena de elogios? E por que, quando estamos solitários, sempre imaginamos que os outros estão felizes, mesmo sabendo que, quando estávamos acompanhados, éramos mais infelizes do que o somos hoje? Por que a mulher do vizinho, mesmo sendo inferior à nossa em todos os quesitos, nos parece, entretanto, mais apetecível e mais capaz de nos fazer felizes? Por que, como diz o poeta, a felicidade sempre está onde a pomos, mas nunca a pomos onde estamos? Por que nunca nos contentamos com o que temos? E por que só damos valor às coisas quando as perdemos? Por que somos felizes sem saber ao passo que sempre sabemos quando somos infelizes? Por que a felicidade é sempre retrospectiva enquanto o desespero é sempre presente? De onde nos vêm essa bizarra capacidade de sofrer?

Não bastasse o fato de sermos psicologicamente mal programados, temos ainda que aturar as insolências da vida. Você já parou para analisá-la com a profundidade que o assunto merece? A vida parece ser a representação do carrasco perfeito, pois nenhum carrasco possui métodos mais refinados para produzir dor. Os carrascos não conhecem o poder da alternância: eles batem, maceram, chicoteiam, arranham e mutilam, comprazendo-se com a dor infligida, sem nunca suspeitar que a interposição de prazeres a essa sequência de tormentos aumentaria ainda mais o sofrimento da vítima. Sob o seu poder, a vítima não demora a perceber que a vida é uma maldição e que a única maneira de se livrar dela é pela morte. Mas veja como são diferentes as coisas quando o carrasco é a própria vida. Ela nos aflige com uma quantidade inominável de desgostos e provações, mas tudo tempera com breves instantes de felicidade, criando em nós a ilusão de que eles podem ser repetidos no futuro e talvez até se tornem predominantes. E assim ficamos sempre presos a ela, sempre a oferecer as costas ao azougue do verdugo que não cessa de trabalhar. “Antes fosse ela toda fel!/ Que ao se mostrar às vezes boa,/ ela requinta em ser cruel…” Não foi isso o que escreveu Manuel Bandeira em A vida assim nos afeiçoa?

E, se isso não lhe parece o bastante, veja como a vida se supera em matéria de crueldade quando estamos perto de desmoronar. Já observou que ela sempre nos dá tudo o que queremos antes de tomar tudo o que temos? Um pobretão leva uma existência miserável desde o dia em que vem ao mundo até a véspera da sua morte. Então lhe chega a notícia de que um parente desconhecido morreu e lhe deixou uma exuberante herança. Em seguida, a mulher por quem ele está apaixonado há vinte anos finalmente decide recompensar-lhe o amor aceitando seu pedido de casamento. Os benefícios que ele proporcionou à comunidade enfim são reconhecidos; homenagens lhe são prestadas, seus sonhos se realizam, seus caprichos são satisfeitos, um cortejo inenarrável de prazeres cruza sua existência até então mesquinha e estéril. E quando ele pensa que finalmente encontrou a felicidade, vem o diagnóstico de que seu corpo está incuravelmente enfermo e que só lhe restam seis meses de vida. O que diabos há com a nossa vida, Mônica? Por que ela não permite que a morte seja acompanhada por uma doce resignação? Por que tem sempre que acrescentar ao horror da morte os tormentos da saudade?

Crédito da imagem: http://quadrosdecorativos.net/obras-de-candido-portinari/.

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